A Comilança
3 de maio 2007 21:34 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirAssistir a um clássico
Fui ao cinema ver um clássico. Já tinha ouvido falar do filme A Comilança, conhecia a fama, a polêmica envolvida e a premissa surpreendente de quatro homens que decidem se trancafiar numa casa para, literalmente, comerem até morrer. O pôster na entrada do cinema dizia, alegremente e com exclamações: “A polêmica está de volta!”.
A platéia presente era parte de um cineclube específico, e imagino que a maioria já soubesse do filme e da história por trás dele. Os clássicos do cinema maldito sempre são comentados e povoam um certo inconsciente de quem sente conhecer a obra mesmo sem tê-la visto.
Isso porque A Comilança já foi bastante estudado. Já se disse muito sobre a associação entre a carne enquanto sexo e a carne enquanto comida, sobre os prazeres máximos dos pecados capitais (a gula seria o maior pecado, ainda associado ao ato sexual), sobre a crítica à burguesia, ao consumo, sobre o elenco estelar (Marcello Mastroiani e Michel Picolli estão lá, entre outros) etc.
Então, vi o que esperava em termos temáticos: as orgias, a sucessão de pratos que vão do delicioso ao asqueroso, o paraíso alienado de prazeres. Logicamente, é diferente quando se tem contato com o trabalho dos atores, com o ritmo imposto pela montagem, com enquadramentos. Um filme é muito mais que sua temática, mas posso dizer que a surpresa se perdeu.
Lembro-me da obra musical de John Cage, 4:33. Nela, um músico se sentava em frente a um piano por quatro minutos e trinta e três segundos, sem tocar. A roupa é ajeitada, o pianista arruma o banquinho, os dedos são estalados. Na apresentação original, as pessoas ficavam impacientes e a verdadeira música se constituía de seus cochichos de desconforto.
No ano passado aconteceu em São Paulo uma reapresentação da peça a uma platéia de estudantes de arte, dos quais certamente a maioria já tinha ouvido falar do 4:33. As pessoas assistiram, calmas; e algumas riram, conscientes do processo de espera. Ao fim, a platéia ovacionou o músico-ator. Uma professora de estética se aborreceu e me confessou que a obra perdeu o seu ineditismo, sua força.
Bom, não acredito que um bom filme precise chocar; e também não faz sentido pensar que só se usufrui uma obra corretamente se ela for vista com “olhos puros”, ou desavisados. Uma pessoa pode muito bem conhecer o conteúdo, a temática do que vai assistir. Muitos críticos escrevem para o espectador que lê as resenhas antes de ir ao cinema, já que alguns apontamentos podem justamente reforçar o gosto pelo filme ou fazer o espectador atentar para certos aspectos.
Mas, em uma obra marcada pelo ineditismo e pela experimentação, o choque é, sim, uma parte importante do processo de apreensão de um filme. Ver Saló, do Pasolini, sem saber que se presenciará um festival de torturas angustiantes é muito diferente de assistir ao filme tendo conhecimento do que se passará. A vanguarda infelizmente se perde com o tempo, e o selo de “clássico” tira da obra a possibilidade de se apresentar nova ao espectador. Assiste-se à qualidade e à fama, assiste-se à aprovação.
Lembro do professor da Unicamp, Alexandre Barbosa, que se dizia feliz por todos que nunca haviam lido Dom Quixote - seu livro favorito - porque “sempre poderiam ler pela primeira vez”, algo que ele havia perdido há muito tempo. Não sei se um filme também manteria encapsulado esse prazer da primeira apreciação, independentemente da época. Nunca o perguntei. Sobre A Comilança, percebo que vi o clássico, e não o filme. E acredito que nunca o verei com o sabor de primeira vez.