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A Humanidade

Um olhar estrangeiro

Uma imagem inicial assombra todo o filme: trata-se do cadáver de uma garota de onze anos de idade; violada, estuprada e jogada sobre um campo gramado, à beira da estrada. Curiosamente, ela é despersonalizada ao ponto de não vermos seu rosto, mas unicamente sua vagina ferida, sangrando.

Affiche

Affiche

Essa imagem é representativa, primeiramente, pelo elemento “choque” que não retornará mais ao longo da história, mas que basta para condicionar todas as ações que se seguem e, segundo, por reunir as duas pulsões psicanalíticas fundamentais que entrarão em conflito no protagonista: a morte e o sexo.

Este protagonista é Pharaon, um policial que presencia o corpo da cena inicial, mesmo que obviamente não esteja acostumado a esse tipo de ocorrência. Seu trabalho geralmente é calmo, administrativo; o que lhe condiz, uma vez que Pharaon é um sujeito claramente limítrofe, com traços que alternam entre o autismo e um leve retardo mental.

Interessante a escolha de um sujeito alheio à sociedade para conduzir o olhar do filme. Todas as ações passam pelo crivo de seu julgamento ingênuo-infantil, digno do homem bom. Ele é incapaz de exergar maldade nos outros, de perceber malícia no que quer que seja. Sua vida é presa à estrutura familiar (ele ainda mora na casa da mãe, após ter perdido a esposa e o filho num acidente que nunca é explicado), à monotonia da polícia e à paixão pela vizinha Domino.

Domino, por sua vez, é a encarnação dupla da santa e da prostituta: ela é a amiga fiel e protetora, enquanto transpira uma certa sexualidade vulgar, representada pelos longos períodos passados na frente da sua casa, encostada à porta, vestindo trajes minúsculos e acariciando o próprio corpo, queixando-se do calor.

Ela representa todos os desejos sexuais de Pharaon, mesmo que ela tenha uma namorado que também é amigo deste. O policial chega mesmo a entrar na casa da vizinha e presenciar o ato sexual dela, o que é percebido e consentido por Domino. A partir desse momento, as diversas cenas de sexo entre Domino e o namorado Joseph serão sempre filmadas desse mesmo ponto escondido do corredor, como se Pharaon estivesse lá, espiando.

O fantasma sexual, logo, se une à idéia da morte. O ato sexual com Domino significaria sua perda (sua morte simbólica), pouco após a perda da esposa. Além disso, Pharaon é confrontado com o impasse nas investigações sobre a menina morta, uma vez que não há provas, nem testemunhas que possam fazer progredir o caso.

A polícia (e a noção de justiça) é completamente impotente, composta de seres bonachões e letárgicos, cheio de boas vontades. As buscas são esticadas ao longo de todo o filme, sempre com resultados nulos, com uma certa noção de desespero, de cansaço que vence todos os personagens. O diretor Bruno Dumont filma esse trecho “policial” da história na base de diversas ações que nunca modificam os fatos conhecidos. Ele joga seus personagens de um lugar a outro, ele os recoloca em salas do comissariado como quem rearranja peças de um mobiliário. Fica a grande noção de esforço, de cansaço decorrente desse deambulação inútil dos personagens, e ajudada pela idéia de calor que abate a cidadezinha.

Vale pensar que “a humanidade”, neste caso, é menos uma noção sociológica (uma população, o conjunto de homens sobre a terra) do que um valor (a compaixão, a fraternidade). Pharaon é o homem que tem compaixão por todos, o homem dotado de humanidade que é completamente incapaz de alterar os rumos à sua volta. Seu caráter virtuoso faz dele um tolo, um ser à parte. Tanto é que a própria história vai resolver sozinha, como num passe de mágica, a solução para seus problemas: na questão da morte, o assassino é descoberto de uma hora para outra; na questão sexual, Domino se oferece ao vizinho.

Pharaon foge, incapaz de aproveitar dessas situações. O final continua a idéia mágica, primeiramente suspendendo o protagonista do chão e o elevando aos ares, como um Cristo moderno; e depois mostrando-o numa sala, trancafiado numa sala de polícia, algemado. Noções de culpabilidade? De impossibilidade de fugir? Bruno Dumont conclui seu filme com uma solução narrativa que não se preocupa em esclarecer a história, mas sim em construir ainda mais símbolos e metáforas em torno deste protagonista humano e puro.

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