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A poesia e a rebeldia

O Festival do Cinema Brasileiro de Paris continua, mas a primeira semana, em que são apresentados os filmes em competição, já acabou. Logo foram apresentados os vencedores: Mutum e Deserto Feliz dividiram o prêmio de melhor filme, mas esse último saiu com certo ar de “grande vencedor” por ter abocanhado também o prêmio de melhor atriz.

Essa divisão foi um tanto inesperada, não tanto por sua raridade (prêmios são divididos com freqüência), mas pelos filmes que seduziram os jurados. No caso, são duas obras praticamente opostas: Mutum é uma obra construída em simplicidade, silêncio. Suas ações são cheias de poesia e de uma delicadeza ímpar.

Deserto Feliz, ao contrário, desconhece o silêncio. Todas suas cenas são um grito, uma denúncia rebelde e forçosamente engajada. As ações variam do sexo ao consumo de drogas, banhados em câmera tremida e imagem distorcida.

Talvez a intenção deste prêmio tenha sido justamente a completude dos dois opostos, modo provavelmente democrático de não tomar partido por nenhuma vertente cinematográfica, de abraçá-las todas. Mas me parece que, juntos, esses filmes se anulam, e que a equivalência de duas visões de mundo enfraquece ambas. Num festival em que duas estátuas foram atribuídas, não houve vencedor.

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