HOME » Cinema » Resenhas »

A Terra Vista do Céu

Beleza(s)

O filme francês A Terra Vista do Céu atraiu uma porção de pessoas à mostra pela sua “beleza”. O público ao sair confirmou como o filme era belo.

Devo dizer que discordo dessas pessoas. Acredito não haver uma beleza sequer no filme. Essa obra feita somente com animação de fotografias superpõe uma série de cartões postais aéreos de diversas partes do mundo. A “beleza” presente é somente a exploração da beleza do senso comum, ou seja, aquela típica dos cartões turísticos: a não-seleção do olhar, a visão ingênua que se deixa perder pela vontade de apreender toda a beleza vista, num ângulo o mais aberto possível. Cada imagem segue esse paradigma: a perplexidade diante do objeto fotografado.

No entanto, não existe algo belo em si, beleza é necessariamente uma convenção cultural. Ainda, a beleza só o é se em comparação a algo menos belo. No caso de A Terra Vista do Céu, a sucessão de imagens belíssimas, em tão grande quantidade, não nos deixa apreciá-las independentemente. Fica no fim do filme aquela sensação de um borrão de coisas belas, mas não se atém a nenhuma imagem.

Ainda sobre a apropriação, em um filme feito somente com fotografias alheias, com voz-over de citações de outras obras, cabe pensar que o papel do diretor esteja justamente na seleção dessas imagens e desses sons. Quando a seleção nada mais faz do que aglutinar padrões comuns agradáveis aos sentidos (e não a produção de qualquer coisa que os instigue), pode-se dizer que a “beleza”, mesmo ela um senso-comum, vem inteiramente das fotografias apropriadas, e não do filme.

Outro pensamento importante: o subtítulo do filme é “Eu te amo”. Essa frase clara retrata melhor o filme do que o título em si, a partir do momento que o filme foi inteiramente contruído para essa mensagem: o amor, no caso, à Terra.

As citações ao Pequeno Príncipe vêm como conseqüência. O mais bonitinho e ingênuo livrinho sobre amor conduz apropriadamente um filme ainda mais ingênuo, que reforça e diz claramente, no fim, que quer ver a Terra bela, e acredita que quem a manterá assim são as crianças, eternos futuros. Uma amiga ficou contente ao ver que ainda há espaço para a esperança, para a utopia.

Concordo que há espaço, e que nenhum tema deve ser censurado no cinema. Temas importantes como sexo, violência e amor utópico devem ser vistos nos filmes. O que difere as abordagens não é o que se mostra, mas como. A Terra Vista do Céu faz todo um discurso claramente amoroso e afetuoso em relação ao seu objeto de estudo, e não perde uma só chance de reafirmá-lo. É essa narrativa estupidamente clara que tanto irrita, por supor a falta de compreensão do espectador. Subestima-o para garantir que entenda o mínimo. Nivela-se o conteúdo por baixo para que ele atinja mais pessoas.

Todo filme tão claro impede interpretações diversas, impede camadas mais profundas. O didatismo é avesso à arte, e é por isso que A Terra Vista do Céu funciona melhor como produto de ensino nas escolas do que como obra de arte - necessariamente inútil e questionadora.

Comentários

Nenhum comentário para “A Terra Vista do Céu”

Comente