A Vida Sonhada dos Anjos

2 de junho 2007 21:42 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

O não-pertencimento

Algumas pessoas têm uma característica que poderíamos considerar como desapego, ou mesmo uma certa liberdade extravagante. São pessoas que têm famílias mas não mantém necessariamente contato com elas, têm um emprego até encontrarem outro melhor. São pessoas livres de ambições futuras, seja de enriquecimento ou reconhecimento.

Essas figuras muito particulares são o objeto de estudo do diretor francês Erick Zonca no único longa-metragem que realizou em sua carreira, A Vida Sonhada dos Anjos. No filme, ele utiliza o destino para confrontar duas destas personagens “livres”. Elas são Marie e Isa, que se encontram em um emprego provisório e se tornam amigas talvez pela falta de afinidades. “Não tenho lugar pra ficar, posso dormir na tua casa?” “Pode ser.”

E dessa simplicidade nasce uma amizade interessante, em que duas figuras opostas vêem a possibilidade de se completarem juntas. Marie é particularmente amarga e anti-social, afasta todos por um movimento quase natural, enquanto Isa abraça a todos a ponto de nunca ter ninguém. Juntas, mais do intimidade ou alguém com quem contar nas horas de angústia, elas encontram uma cumplicidade. Ambas passam a fazer pequenas bobagens juntas, como por exemplo passar pequenos trotes em pessoas na rua.

Zonca filma essas cenas com uma delícia que lembra imediatamente o modo de filmar da Nouvelle Vague francesa, com câmera na mão, planos-seqüência, luz natural. A câmera parece não querer se intrometer ou influenciar essas duas vidas em estado bruto. Busca-se a pureza do real, do intocado. Se as personagens buscam uma liberdade total, a estética fílmica as segue.

Os conflitos se instauram com as visões diferentes de amor: essas duas figuras deslocadas no meio social vão depositar seu afeto não uma na outra, mas em objetos igualmente deslocados: Isa acompanha a trajetória de uma desconhecida no hospital, em estado de coma; enquanto Marie , cobiçada por vários homens, apaixona-se por aquele que mais a despreza, que não demonstra nenhuma perspectiva de futuro duradouro. Ambas se debruçam no falível, no objeto fadado ao fracasso. Parece que, assim, garantiriam sua liberdade futura.

Zonca cria um destino cruel e duro para suas personagens, associando a bela figura do anjo a um momento de tragédia. Dentro dessa busca eterna entre o real e o sonhado, não há finais felizes. Filme estranhamente duro e, ao mesmo tempo, poético. Mas nada de desfoques, imagens bonitas, natureza: a poesia de A Vida Sonhada dos Anjos é inteira apropriação, não construção.

Comente