A arte do (des)controle
O título anuncia “atrizes”, no plural, mas é uma só que conduz toda a história: trata-se de Marcelline, chegando aos quarenta anos, em plena crise sentimental por não ter filhos e marido. Enquanto isso, ela enfrenta a produção de uma nova peça de teatro, em que é a protagonista.
Affiche
Marcelline é interpretada por Valeria Bruni-Tedeschi, que também assina a direção. Actrices gira em torno da figura de Marcelline/Tedeschi, ambígua pela dificuldade de se dissociar uma da outra (ambas atrizes, quarentonas, questionando a arte). E pouco pode-se dizer sobre a trajetória dessa personagem, já que o filme adota um tom situacional, não-evolutivo, explorando justamente a situação inerte de Marcelline.
Logo, se não se trata de ação dramática, o roteiro caminha de crise em crise: Tedeschi expõe-se aos mais diversos momentos cômico-dramáticos, o que inclui levar tortas na cara, pedir para um padre engravidá-la, amamentar o bebê alheio e imaginar-se grávida da própria mãe. Como uma espécie de Woody Allen francês, Tedeschi explora o ridídulo de si mesma.
Actrices
Enquanto isso, ela reflete sobre o teatro e, em última instância, sobre a própria arte. Um dos maiores méritos de Actrices é mostrar a arte por dentro, do ponto de vista do trabalho (repetições, treinos e mesmo brigas) e da subjetividade. Os mesmo trechos são reencenados várias vezes, e as intensidades e nuances variam com o grau de paranóia e de insegurança de Marcelline.
É no teatro, que a diretora parece conhecer muito bem, que as ações cômicas ganham força. O diretor da peça é um sujeito egocêntrico e pseudo-culto (“ela é tudo e ela é nada, ela é uma força”, ele diz ao lhe explicar a personagem), dominador e ao mesmo tempo viril, o que faz diferença na fase insegura de sua atriz.
Essas figuras se misturam aos poucos aos fantasmas que aparecem na vida de Marcelline (o pai e o ex-namorado, mortos; bem como o espírito da sua própria personagem na peça), num delírio felliniano em que passado e presente se misturam e reenforçam a desesperança num futuro.
Actrices
Por fim, o filme equilibra o drama da vida pessoal com a comédia do teatro. Enquanto a vida se encarrega de simbolizar o dramático, a arte ilustra o cômico, e a personagem de Marcelline vem costurar esses dois. Em seus ensaios, fica cada vez mais difícil de sabermos se vemos a atriz ou seu personagem, ou ainda a própria Bruni-Tedeschi.
Actrices funciona como homenagem ao teatro (enquanto arte e profissão), mas também como análise interessante de um tema pouco comum no cinema (a maternidade tardia e a pressão social para que uma mulher vire mãe). De tom leve e abordagem complexa, esta obra consegue conciliar crítica e público, constituindo um sucesso comercial de rara qualidade.
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