Amantes Contantes
16 de outubro 2006 21:12 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirO Tempo conta a História
Numa noite de confrontos entre rebeldes e a polícia no maio de 68, na França, vemos uma barricada, jovens correndo, incendiando carros, fugindo. Saem da nossa vista. Logo, entende-se pelo som que os conflitos se localizam agora numa região próxima à barricada que vemos. Mas nossa imagem continua lá, focada.
E depois de um tempo, a ação volta, e pára, e volta de novo. Nosso foco de atenção é o mesmo. O tempo passa, e aos poucos aquele embate que parecia tão chocante não mais o é. Já vimos os jovens correndo, e é só isso que fazem. A polícia também faz o mesmo. Em uma mesma imagem longuíssima, passamos da excitação para a apatia. O tempo da imagem é diferente do tempo de seu referente.
Em Amantes Constantes, tudo é desgaste. O tema visceral (guerra e amor, num contexto mais amplo) é retratado numa obra na qual o personagem principal parece ser mesmo o tempo, e a transformação do olhar do espectador. Se Chaplin definia a comédia como “drama + tempo”, então este filme de Phillipe Garrel é a comédia + tempo.
O resultado beira o conceitual, ou seja, uma obra em que o conceito (idéia) se sobrepõe à realização. Como a roda de bicicleta de Duchamp, que valia mais pelo questionamento imediato (“mas então o que é arte?”), Amantes Constantes estimula o questionamento e o “afastamento”, ao expor a ação mínima ao tempo máximo. Os próprios amantes do título, por exemplo, sequer são vistos se beijando. Mas a imagem os mostra juntos, com afeto e o diretor deixa que isso baste.
A História é, então, revista. Pesam os fatos mantidos, mas realiza-se uma obra em que a forma se aproxima do conteúdo mostrado. Nada de sangue ou heroísmo; o clima do intenso preto-e-branco, os tempos mortos são objetos de estudo mais evidentes que os fatos reais. É o cinema histórico que abdica de seu caráter documental para ser visto como filme, com seus grãos aparentes e linguagem particular.
Que fique claro, o valor da idéia da obra não se transmite exatamente num prazer de se assistir ao filme. Algumas boas sessões de cinema são dolorosas e cansativas física e emocionalmente, então a evasão durante as sessões deste filme francês foi grande. Quem esperava uma reprise de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, surpreendeu-se com um filme sem paixão aparente. Uma visão do maio de 68 que dá espaço à razão mais que às emoções, ao retrato mais que ao retratado.