Après Lui

28 de julho 2007 21:49 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

A objetividade do luto

Muitos filmes já tomaram o luto como tema, e decidiram investigar em imagens este sentimento de difícil descrição, de potencial visual pouco evidente. Lembro-me, entretanto, de vários títulos muito bons nesta pesquisa, como Entre Quatro Paredes, O Quarto do Filho e A Liberdade É Azul.

Affiche

A solução que estes filmes encontraram para retratar a dor foi o caminho das metáforas e das poesias. Em O Quarto do Filho, por exemplo, o pai de um garoto morto vai a uma montanha russa sozinho, à noite, para tentar literalmente chacoalhar seu corpo abatido e inerte. Em A Liberdade É Azul, uma mulher fere as mãos numa parede áspera; como se a dor deste atrito pudesse superar ou despertá-las das outras.

Après Lui é totalmente diferente destes filmes. Primeiramente, ele não tenta retratar os sentimentos de uma pessoa que perdeu um ente querido, mas sim suas atividades, como ela age. Do retrato poético da dor, passamos para o retrato documental da rotina de uma pessoa após a perda.

No caso, tem-se como protagonista uma mãe que perde o filho num acidente de carro. As cenas são mostrada em ordem cronológica e clara: a mãe recebe a notícia por telefone; avisa o ex-marido, correm para o hospital, constatam o inevitável e retornam. Neste período, a mãe chora. E muito. A montagem corta de uma cena de catarse a outra semelhante, de modo que, após alguns minutos, talvez o espectador se torne inerte a essa crise, a essa lógica de se mostrar o choro de uma pessoa triste.

Après lui

O retrato é, portanto, explícito. Nada de montanhas russas ou paredes ásperas, mesmo as raras metáforas deste filme são de uma objetividade atroz: como o filho bateu o carro numa árvore, é contra ela que sua mãe se revolta, e tanta cortá-la. Ela também tenta dirigir em alta velocidade, para ver “como se sentiria”.

A frieza dessas ações parecem destituí-la de sensibilidade. Vemos o choro e desespero de pessoas que nos parecem irreais, maquínicas; e neste ponto é fácil se distanciar e assistir a esse espetáculo de bem longe, sem se tocar. Ironicamente, temos em mãos um filme com uma grande quantidade de lágrimas, mas que dificilmente tenha despertado alguma em quem o assiste.

O grande diferencial no roteiro é o fato de que a mãe (uma Catherine Deneuve lamentavelmente mal-dirigida) direciona sua vida para o melhor amigo do filho e sobrevivente do mesmo acidente. O psicologismo de tomá-lo como filho se mescla com uma tentativa de sugerir uma certa tensão sexual entre ambos.

Après lui

A cena final talvez resuma tudo que se mostrou até então: a protagonista vai até um lugar distante procurar seu “novo filho” e o encontra semi-nu, dormindo numa cama de modo claramente sedutor. A câmera mostra então os olhos da mãe. Não sabemos o que ela olha, o que sente, mas interessam os olhos, então eles são mostrados. Simples e claramente.

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