A racionalização do luto
Na cidade francesa de Reims, em 2004, o jovem homossexual François Chenu foi espancado até a morte num parque público por três skinheads. Inconsciente, ele foi jogado num lago da região, e seu corpo foi encontrado no dia seguinte.
Affiche
“Au-delà de la haine” significa, em francês, “além da raiva”. Esse título se justifica, primeiramente, pelo fato do documentário não ter sido realizado no calor dos fatos, mas dois anos depois, na época do julgamento dos três jovens que assassinaram François, época em que as pessoas envolvidas (principalmente da família da vítima e os advogados de ambas as partes) já conseguiam falar na história com grande controle emocional.
O filme de Olivier Meyrou nega completamente a abordagem sentimentalista do evento. Seria fácil fazer um filme de acusações e denúncias contra o preconceito, mas o diretor se previne de todas as maneiras possíveis. A primeira, e mais notável, é a despersonalização dos envolvidos: jamais se vê rostos ou fotos da vímita. François é uma pessoa como qualquer outra; e nenhuma materialização sua em imagem é oferecida, talvez justamente para que ele continue universal e exemplar, ao invés de um fato particular. Da mesma maneira, jamais se vê os assassinos.
O que está em jogo, aqui, é a família e as pessoas afetadas pela morte. Mãe, pai, irmãos apresentam seus pontos de vista com grande distanciamento, menos por frieza do que pelos efeitos da passagem do tempo. Discussões dolorosas sobre as circunstâncias do crime (por que ele teria sido agredido unicamente no rosto?) ou sobre o depoimento dos acusados (e a ausência de remorso) ocupam o filme de maneira lúcida e ponderada.
Au-delà de la haine
Se não apela aos sentimentos, o filme não se torna por isso um apanhado de fatos e números. Não existe a paixão policial de reconstrução exata do assassinato, com fotos, evidências, suspeitos… nada disso interessa à narrativa. Datas e horários exatos não são sequer mencionados.
Logo, o centro de interesse é a tranformação do luto com o tempo, quando as emoções passam a ceder espaço para um desejo de compreensão, momento este que coincide com o julgamento do crime. Um momento interessantíssimo ocorre quando a mãe de François relata exatamente o instante em que recebeu a notícia de que o corpo de seu filho havia sido encontrado. Não se vê seu rosto, não há comoção.
A mãe se torna narradora do filme, enquanto o diretor desvia espertamente a imagem para o parque em que o crime aconteceu. Por quase dez minutos, a voz materna se sobrepõe à imagem do anoitecer neste parque, que passa de um lugar agradável a outro assustador, tanto pelos fatores físicos (a fraca luz do lugar, em especial) quanto pela história que vem atribuir significado ao lugar até então neutro.
Essa dissociação entre som e imagem se reproduz inúmeras vezes, sempre com objetivo de se separar da representação do real (e, portanto, da mera reconstituição dos fatos) para construir imagens que simbolizem a dor, a perda e o processo de racionalização do luto. Assim, o depoimento sobre a homossexualidade de François é acompanhado de imagens da neve fora da casa, e a descrição das vítimas é ilustrada pelos olhos do pai de um deles.
As questões que o filme impõe ao espectador são mais complexas que o desejo de justiça. Pode-se compreender os assassinos? Perdoá-los? Deve-se tornar o caso público, para que sirva de exemplo, ou mantê-lo afastado da mídia? Como compreender a filosofia neo-nazista?
Um dado interessante se adiciona essas questões quando entram em cena os advogados da família e dos acusados. Esses dois homens são confrontados com seus julgamentos pessoais e com as defesas que devem apresentar. No caso do representante dos três garotos, ele diz fora do tribunal achar um absurdo o ato, e ter orgulho de François por ter lutado até o fim. Mas, em frente ao juiz, alega que “é visível que os acusados fizeram progresso”, pelo óbvio respeito à sua profissão.
Au-delà de la haine
O documentário caminha à proposição de compreensão puramente lógica, sem a interferência indesejada da moral e da opinião de cada um. Após a condenação, o juiz afirma que “20 anos é o mínimo que alguém deve pagar por cometer um crime por ódio; é isso que queremos dizer com esse veredito”; e essa afirmação categórica compõe a conclusão do filme.
Muito louvável igualmente o respeito que se mostra aos assassinos. Contra alguns homens exaltados que defendem a pena de morte ou prisão perpétua, o advogado da defesa se vira calmamente e pergunta: “para vocês, para que serve a prisão?”. E os homens se calam. A idéia original de correção e reinserção na sociedade deram lugar ao objetivo de punição simples e direta.
Au-delà de la haine consegue contar uma história brutal sem tomar partido algum, sem mostrar choros ou despertar lágrimas na platéia, constituindo deliberadamente um árido estudo sobre a perda.
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