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Bienvenue Chez Les Ch’tis

Destruir e construir os clichês

“Ch’ti”, em francês, é o apelido dado aos moradores do norte do país, região industrializada e que goza de prestígio turístico muito menos importantes que a região parisiense e que as cidades do sul. É justamente essa área de pouca atenção que o comediante Dany Boon, diretor e protagonista do filme, convida o público conhecer (“bem-vindo à casa dos Ch’tis”, diz o título).

Affiche

Bienvenue Chez Les Ch’tis

Essa proposta já parte de dois princípios importantes: logo de cara, supõe-se que a maioria dos franceses não conhece de fato a região norte (e portanto a preenche de imagens prontas e clichês normalmente atribuídos à região), e em seguida reivindica-se e existência de um lado muito atraente a ser descoberto.

De fato, o início apresenta Philippe, um funcionário habitante de Marselha (sul do país) que é deslocado pela empresa numa cidadezinha do Nord Pas-de-Calais. Esse primeiro segmento brinca com a intensidade dos estereótipos atribuídos aos moradores do norte: a cidade seria chata, fria, sem vida.

Ao pedir os conselhos de um senhor vindo do Pas-de-Calais, Philippe o vê sentado num canto escuro do cômodo, sobre um poltrona. Sua voz assustadora parodia o cinema americano no qual homens poderosos sempre comunicam más notícias nas trevas de um escritório mal-iluminado. Esse tipo de paródia mostra o quanto Dany Boon está ciente de exagerar os próprios clichês e torná-los propositadamente ridículos, para serem em seguidas atacados.

Bienvenue chez les Ch\'tis

Bienvenue chez les Ch’tis

Uma vez instalado no norte sem sua família (que se recusa a ir para um lugar tão detestável), ele vai justamente conhecer pessoas gentis e acolhedoras que vão aos poucos mudar sua imagem da região. Logicamente, ele vai passar por lições de ch’timi (a “língua” local) e aprender a beber em excesso como parecem fazer todos os moradores da cidade.

O diretor Dany Boon, ele mesmo um comediante vindo do norte, reivindica a princípio a destruição dos estereótipos. Sua região não seria tão fria, a arquitetura seria bela, e as pessoas, muito acolhedoras. Prova disso é que Philippe se apaixona por sua nova cidade e não quer mais voltar ao sul.

Contra essa destituição da imagem negativa, no entanto, o filme acaba propondo em parte a construção de um outro estereótipo, diametralmente influente: o norte seria a terra de pessoas gentis, sempre alegres e amistosas. Não há no roteiro uma só pessoa que não convide o novo morador a tomar uma cerveja em sua casa, símbolo da nossa forte nostalgia do período em que vizinhos ainda eram próximos um dos outros.

Conseqüentemente, ao invés da caracterização unicamente ruim, oferece-se uma unicamente boa. O quarteto de personagens autóctones é relativamente limitado intelectualmente, nessa relação comum que se estabelece entre ignorância e bondade. Vale lembrar que os próprios povos de países do terceiro-mundo são normalmente tidos como “calorosos” e “acolhedores” pelos turistas de países ricos, numa generalização estereotipada de caráter depreciativo.

Bienvenue chez les Ch’tis

Seja positiva ou não essa defesa afetuosa do norte; o diretor vai além e brinca mais uma vez com os estereótipos no momento em que a esposa de Philippe o visita. Neste momento, na intenção de mostrar uma região horrível que corresponda às expectativas de sua esposa (no intuito de ganhar sua piedade), ele convida os colegas a criarem um pequeno “teatro” de personagens detestáveis e de hábitos alimentares e sociais primitivos.

Logo, os personagens ignorantes interpretam versões mais primárias de si mesmos, num exame dos limites do estereótipo. A caracterização grotesta expõe o filme frente ao espelho e questiona interessantemente quais os limites do retrato. Esse momento metalingüístico é provavelmente o que há de mais interessante entre os “ch’tis” do filme, justamente porque o cinema escancara seu próprio lado enganador e seus artifícios.

O final conversador e a obrigatoriedade do happy ending excluem a possibilidade de qualquer reflexão profunda sobre os clichês ou mesmo sobre a questão da representação. A crítica francesa preferiu enxergar o filme como uma boa obra de entretenimento, sem grandes pretensões; e capaz de reacender o gênero da comédia popular, o que aqui significa um filme sobre clichês franceses destinados unicamente aos próprios franceses.

Em outras palavras, Bienvenue Chez Les Ch’tis seria um tipo de piada interna que abastece o mercado cinematográfico do país de uma bilheteria espantosa, e que relembra ingenuamente aos conterrâneos de uma França centralizada (em torno de Paris) a existência de regiões fora dos holofotes.

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