Chacun son Cinéma
7 de novembro 2007 22:11 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirCaminhos conhecidos
A maioria dos filmes episódicos costuma definir, pela sua premissa, a amplitude do resultado possível. Por exemplo, o recente Paris, Te Amo já partia da idéia de que todos conheciam Paris, que a amavam e, acima de tudo, que estavam afim de manifestar esse amor. O resultado foi um tanto desastrado e amorfo; assim como Eros, de uma temática tão vasta que gerou curtas bons num filme que pareceu tristemente insuficiente face à ambição inicial.
Chacun son Cinéma
Chacun Son Cinéma tem os pés no chão. O tema é não exatamente o cinema enquanto arte (algo muito amplo), mas a sessão de cinema, o escurinho da sala, o ato de se deslocar de casa e dedicar duas horas de sua vida em silêncio ao lado de estranhos. Os autores são 35 dos diretores mais queridos de Cannes (o filme foi feito sob demanda para o festival), de modo que cada um foi encarregado de um filme bem curto, que dificilmente excede três minutos.
Uma medida interessante foi colocar os filmes acima dos diretores, ou melhor, à frente das figuras de cada realizador. Cada pequeno curta é apresentado por seu título unicamente, e só ao fim se sabe quem o dirigiu, mesmo que certos traços pessoais identifiquem instantaneamente muitos dos realizadores. Essa escolha é interessante por não necessariamente dirigir o olhar para o “mestre”, para o “filme de fulano”, mas para o material em si. Vemos curtas de diretores excelentes como se víssemos o material de anônimos, o que excita fortemente os sentidos.
Outra pequena restrição do idealizador Gilles Jacob foi de impedir absolutamente que um diretor soubesse do que se trataria os filmes alheios, de modo que cara realizador só viu os outros segmentos na apresentação oficial. A conseqüência desta escolha se evidencia pelos mais diversos tipos de abordagem, mesmo que a organização dos curtas favoreça uma agrupamento por temáticas próximas.
No caso, pode-se dizer que uma primeira parte se dedica justamente a expandir a premissa diminuída, ao fazer da sala uma metáfora mais ampla do cinema, e falar da arte como um todo. São filmes mais sentimentais, nostálgicos, geralmente focados na figura de crianças que se encantam pela primeira vez com as imagens na tela, ou com casais que se formam nas sessões, com fãs que assistem aos filmes múltiplas vezes… essa parte concentra principalmente diretores asiáticos, como Zhang Yimou, Chen Kaige, Wong Kar Wai, Tsai Ming Liang (com um curta lindíssimo), mas também Abbas Kiarostami e os irmãos Dardenne.
Grosso modo, as sensibilidades ocidentais preferiram se aprofundar no caráter metalingüístico da premissa de uma maneira majoritariamente cômica, com os diretores em tela, servindo de protagonistas e falando de suas experiências, seus gostos e desgostos. Esse grupo concentra David Cronenberg, Lars Von Trier, Elia Suleiman, Nanni Moretti (num filme hilário), além de Takeshi Kitano e Youssef Chahine.
Algo que une essas esferas distintas (ou as separa, quem sabe) é justamente a posição - por vezes involuntária - sobre as novas tecnologias. Engraçado notar que, enquanto alguns se remetem ao romantismo da película quando falam de paixão pelo cinema (são inúmeros os segmentos que concentram suas histórias nas salas de projeção), outros a associam ao vídeo, à possibilidade ampla de se obter imagens e registros, de qual natureza eles forem. Assim, os românticos fazem referência ao cinema mudo, enquanto os mais moderninhos mostram jovens dentro do cinema filmando a tela com seus celulares; numa nova forma proposta de cinefilia.
De um modo geral, é difícil falar em ousadia em Chacun Son Cinéma: cada diretor fez um filme muito curto, partindo de idéias simples, com atores e equipes habituais, além dos temas e modos de filmar típicos. Assim, temos como de habitude as imagens rebuscadíssimas de Wong Kar Wai, o humor corrosivo dos irmãos Coen, o cinema-telenovela de Alejandro Gonzáles Iñarritu, o fetichismo gay-adolescente de Gus Van Sant, o engajamento a qualquer preço de Amos Gitai (que consegue impressionantemente embutir um atentado e uma bomba num segmento de três minutos), o olhar histórico de Manoel de Oliveira, os jovens inconseqüentes dos irmãos Dardenne e o nonsense metafísico de David Lynch.
A impressão é de ver um filme calmo, mezzo romântico mezzo satírico, de diretores que apostaram em caminhos seguros, conhecidos, pessoais. Talvez não seja a mais profunda “declaração de amor ao cinema”, como diz o slogan, nem uma abordagem extensiva do cinema-espetáculo; mas é definitivamente um pequeno filme que ganha em sua despretensão; e que permete, ao não impor uma grande responsabilidade (algo como “prove seu amor ao cinema”), que os traços autorais se destaquem e se contrastem, num painel documental representativo de algumas das estéticas mais importantes do cinema atual.
absurda « Pure Bug Beauty dice:
18 de novembro 2008 as 2:52
[...] filme. O [...]