Confidências Muito Íntimas

1 de setembro 2006 21:02 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

O apoio de estranhos

Patrice Leconte é diretor de filmes conhecidos como A Garota da Ponte e A Viúva de Saint-Pierre, embora não seja exatamente uma unanimidade de público ou crítica. Seus filmes de gênero sempre indefinido (misturas constantes de dramas, suspenses, romances e até comédias) e a direção grandiloqüente criam uma reação de ame-ou-odeie; até críticos de renome como A.O.Scott, do New York Times, dizem que Leconte filma com talento histórias “desinteressantes”.

Para quem gosta do trabalho do diretor, ou ainda não teve oportunidade de conferi-lo, está em cartaz nos cinemas seu último filme, Confidências Muito Íntimas. Seus traços autorais estão todos lá: a câmera tremida e ágil intercalada com planos longos e fixos, as situações pouco prováveis, a tensão sexual.

A história parte de Anna (a fantástica Sandrine Bonnaire), uma mulher confusa e deprimida que busca o auxílio de um psiquiatra, mas erra a porta e entra no consultório de um consultor financeiro. Ela lhe conta toda sua história e ele, sem ter tempo para explicar sua real profissão, não revela a verdade. Essa trama, que parece de início a simples tensão de “quando será que ele contará a verdade?”, é logo quebrada e substituída por uma trama bem mais profunda, quando a farsa é revelada e Anna, mesmo assim, decide continuar as “sessões”.

Logo, a relação dos dois (uma farsa bem armada, com direito a divã improvisado) torna-se um encontro onde ambos se abrem e se consultam, e trocam idéias e opiniões; mas nunca como amigos: sempre na relação profissional, com hora marcada e cumprimentos formais de “doutor” e “paciente”.

A brincadeira confortável (é sempre mais fácil abrir-se com estranhos, parece dizer-nos Leconte) evolui para uma obsessão, uma necessidade na rotina de ambos, e eles se vêem mais e mais. As confidências são cada vez mais picantes, o palavreado é mais agressivo, e o tratamento entre eles, mais íntimo.

Nesse momento o filme tenta se assumir como o suspense que anuncia desde o começo, com trilha sonora que nos prepara para sustos que quase nunca vêm e citações claras a filmes de Hitchcock (Janela Indiscreta, principalmente). Mesmo assim, embora haja espaço até para a comédia (através da figura da secretária bisbilhoteira, que sempre flagra ambos em momentos de interpretações ambíguas), Confidências Muito Íntimas é um claro drama.

Leconte tem um bom ritmo de direção e trabalha uma alternância entre os aspectos previsíveis que de fato de concretizam e outros que ficam no ar, trabalhados cuidadosamente para obter uma frustração “participativa” do espectador, que entra no jogo e é levado a estabelecer uma série de conclusões errôneas, ou pelo menos distorcidas.

O mais interessante do filme é a relação que pode se estabelecer entre estranhos. Anna encontra em William (o consultor) o ouvido perfeito e um psiquiatra a quem seduz, talvez como forma de elevar sua auto-estima. Ele é um homem pateticamente construído como solitário (vive só e se alimenta de produtos congelados), que vive momentos únicos de fervor sexual através das histórias que ela lhe providencia. É um teatro bem elaborado entre duas personagens completamente fictícias, reconfortantes e idealizadas, que só existem em presença uma da outra.

Nesse sentido, poderíamos até lembrar o teatro de hipocrisias em Questão de Imagem, de Agnès Jaoui mas, enquanto a atmosfera criada neste é de crítica e niilismo, em Confidências Muito Íntimas Leconte nos lembra a máxima lacaniana de que só nos constituímos como seres humanos a partir do contato com outros. Precisamos deste contato para desejar, para nos sentirmos desejados; somos alimentados desses retratos, sejam eles reais ou imaginários.

Comente