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Defender um filme

Começou o Festival de Cannes 2008, com um destaque especial para a grande quantidade de produções latino-americanas entre entre os 22 selecionados, e com a honra de ter um filme de abertura de um diretor brasileiro: Blindness, de Fernando Meirelles.

Para a surpresa geral, o filme foi mal-recebido. Ao fim da sessão, não houve aplausos (aliás, aparentemente alguém iniciou, solitário, a salva que não foi seguida pelos outros), num lugar este símbolo é realmente valorizado e não existem as “palmas por educação”: se não se gosta do filme, não se aplaude. A falta de aplausos, em Cannes, é um sinal grave.

Logo em seguida, começaram a sair os textos da imprensa: “cansativo”, “óbvio”, “redundante”, “moralista”, o filme de Meirelles chegou mesmo ao cúmulo de ser atacado enquanto projeto, pela revista Variety, que disse que o filme não deveria sequer ter sido feito (crítica que é, independente da qualidade da obra, absurdamente pretensiosa).

O diretor ficou chocado, e tratou de responder educadamente aos jornalistas. Primeiro, disse que respeita todas as opiniões; para logo em seguida dizer que ele fez uma obra muito “ousada”, que realmente tinha arriscado muito. Ou seja, inverteu curiosamente a qualidade das acusações, como se ele fosse muito à frente de seu tempo, à frente mesmo das sensibilidades de centenas de jornalistas.

Essa educação com uma pitada de arrogância continua, com a afirmação de que os jornais que tiveram mais tempo para a redação das críticas haviam emitido mais positivas, o que significa que um filme, nas suas palavras, precisaria de “tempo para decantar”. Novamente, a culpa é dos críticos, ou da estrutura do festival.

De fato, não é nada fácil receber críticas negativas em um lugar tão importante como Cannes. Quando um segundo filme brasileiro foi apresentado, e novamente mal-acolhido, foi a vez dos críticos brasileiros partirem para em sua defesa. Linha de Passe ficou longe dos ataques dirigidos à Blindness, mas sofreu novamente do silêncio, ou mais especificamente do desprezo de críticos que julgaram a obra simplesmente boa. Nada demais.

Os jornalistas das revistas Cinética, Contracampo e Cinemascópio foram unânimes quanto à beleza do filme, que seria o melhor do diretor Walter Salles desde Terra Estrangeira (no caso, ainda melhor que Central do Brasil). Mas o filme simplesmente não empolgou. Chocado, um crítico chegou a afirmar que essa recepção fria se daria ao fato que “os franceses não conhecem a realidade brasileira”. Ora, então é preciso conhecer o Brasil para gostar do filme? Ele só poderia ser apreciado dentro do país?

Diante de duas decepções num espaço de três dias, fica evidente a tristeza da crítica e a solução da defesa cega do filme (e do contra-ataque), como se o próprio país tivesse sendo atacado através do silêncio alheio. Cannes pode ser cruel, pode lançar ou arruinar uma obra. Talvez os filmes em questão sejam realmente ruins, talvez a crítica tenha tal ou tal preconceito. Mas parece que não foi dessa vez que o cinema brasileiro vai ter o sonhado reconhecimento do maior festival de cinema do mundo.

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