Dialogue Avec Mon Jardinier

2 de agosto 2007 21:58 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

O discurso duplicado

Em cena, dois personagens conversam entre si. O primeiro fala, e a câmera mostra seu rosto. O segundo responde, e então o vemos. O primeiro fala de uma faca sobre a mesa, então vê-se a faca. Logo, o segundo cita um fato no passado, e este é imediatamente mostrado em tela.

Affiche

Em Dialogue Avec Mon Jardinier, estamos no território da retórica da imagem. Trata-se de um filme no qual claramente a história interessa mais do que o modo de mostrá-la: tem-se em mãos a adaptação de um livro de sucesso na França, no qual a grande parte da história se desenvolve, como diz o título, em conversas de um homem e seu jardineiro.

Por isso, a imagem pede desculpas por se intrometer junto do diálogo. Ela fica lá, quieta, na tentativa de se passar por despercebida. Ela se disfarça de ilustração do livro, uma grande ilustração constante em 35mm. Durante toda a duração do filme, a imagem jamais chama atenção para si mesma. Igualmente, não há silêncios ou descrições puramente imagéticas.

O que o espectador precisa ver, julga o diretor, é o som. Nesse sentido, temos uma grande aproximação com o teatro, com a noção de movimentação dos personagens e de seus diálogos como elementos fundamentais de composição de cena. O cenário aparece de fundo, como a tela pintada no palco. Por vezes, até opta-se por desfocar as paisagens ao fundo: ela não deve jamais constituir um personagem próprio.

Dialogue avec mon jardinier

Como foca-se nos diálogos, é preciso então conhecer quem são esses personagens. O primeiro é um pintor, homem da cidade grande, embrutecido por divórcios e pela falta de amor da filha, e que encontrou na arte uma válvula de escape. O segundo, ironicamente, é um homem que havia estudado com ele na infância, mas que não se rendeu aos prazeres da cidade grande: trata-se da ilustração do bom selvagem, do homem tão ignorante quanto puro. Um caipira de bom coração.

Logicamente, este último ensina diversas lições ao segundo sobre a “arte de viver no interior”. Neste momento, o pintor faz uso de suas lições e metáforas sobre a grama e a jardinagem para jogá-las na cara dos seres da metrópole, todos desprezíveis e individualistas.

O efeito, em nível de análise, é semelhante ao da “gag” na comédia: um elemento que é apresentado sem grande valor reaparece em segundo contexto, agora com significado exponencialmetne mais forte. No drama, o resultado é proporcional: cada diálogo qualquer sobre plantas parece grandioso quando dito à um persongem da metrópole, porque dessa vem ele vem investido de carga emotiva; agora ele é mostra de uma transformação pessoal. Nosso pintor se torna uma pessoa melhor.

Para se alterar o ordem pacífica das coisas, o jardineiro sucumbe de uma doença mortal. Ela é jogada sem a menor delicadeza na história, no esquema de “vamos ao que interessa”. Nossa ovelha pura é sacrificada (e o sacrifício de inocentes sempre tem um valor dramático muito mais forte), mas ela vai permanecer viva como exemplo de bons valores.

Dialogue avec mon jardinier

Por fim, este filme inteiramente ilustrativo de si mesmo se presta a uma síntese de seu próprio artifício: numa exposição, nosso pintor, afetado pelo luto, expõe uma série de quadros que têm como tema os objetos do amigo: suas botas, seus facões. Novamente, aproveita-se da imagem duplicada, e dessa vez a soma de várias, lado a lado, tem clara intenção de multiplicar o efeito dramático. Por fim, a câmera se aproxima, a música sentimental se intensifica e fecha-se numa imagem duplicada que aposta todas suas fichas numa metáfora simplérrima como as lições do jardineiro: uma corda, objeto que aquele costumava carregar e que, neste momento, se reduz ao seu significado mais primário de laço como sinônimo de amizade.

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