Em Direção ao Sul

11 de fevereiro 2007 21:19 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Questão de Imagem

Este novo filme francês aborda o olhar. Ele não só é feito de olhar, como todo filme, mas também o estuda, em seus vários aspectos: o olhar da câmera, o olhar de uma pessoa à outra, o olhar que flagra.

Ele aborda uma situação que é tema de poucos filmes: o turismo sexual. Através de um grupo de três mulheres que vão ao Haiti à procura de negros em “estado selvagem”, como diz uma delas, Em Direção ao Sul analisa como o olhar se transforma, como ele reage ao contexto, e como ele ganha ou perde valor.

Primeiro, há o óbvio olhar da câmera. O diretor Laurent Cantet nos delicia ao apresentar as três personagens (mulheres amarguradas na faixa dos 50 anos) com uma declaração de cada diretamente à câmera. É como se cada personagem soubesse e ao mesmo tempo não soubesse que está sendo vista: uma dialoga diretamente com a câmera, a outra se espreme e fala baixo, como em segredo. Às vezes olham para a câmera (e para o espectador). Enquanto isso, confessam suas histórias amorosas e sexuais, e o que significa aquela ilha para elas.

Depois, há o olhar dessas mulheres americanas e européias aos pobres e negros do Haiti. Como estão em um resort de luxo, são tratadas com todas as regalias, e conhecem da cidade apenas seu caráter exótico e encantador. Elas próprias admitem não sentirem atração por negros em seus países de origem. “É porque lá eles usam camisa”, diz uma. A outra discorda e diz que o lugar tem um “algo a mais”.

O filme estuda ao máximo, sem julgar, a relação das mulheres com os rapazes, e também o que eles pensam delas. Entram em questão o racismo e o fetichismo em suas mais complexas nuances. Legba, o garoto preferido das mulheres, é proibido por uma delas de usar uma camisa, por se parecer como um dos negros de Nova Iorque. A intenção é manter o feitiço: elas querem se relacionar com homens “abaixo de suas categorias”, rebaixá-los, tratá-los como objetos. Qualquer elemento que os torne humanos perante aos olhos da mulheres é evitado.

O diretor, no entanto, enxerga humanos. Tanto que humaniza ao máximo cada uma das protagonistas, que completam entre si as personalidades de pessoas que recorrem ao turismo sexual; e humaniza os objetos sexuais, os garotos negros haitianos. Longe dos olhos alheios, o filme nos fornece, quase em segredo, suas famílias, suas histórias.

E como são filmados esses objetos? Lembro-me da eterna polêmica de Cidade de Deus, em que os negros besuntados em óleo foram acusados de fetichismo, de se tornarem imagens mais palatáveis para os olhares burgueses que viriam a consumi-los. No caso de Em Direção ao Sul, o consumo é precisamente o tema. Enquanto vistos pelas mulheres, os garotos nativos são mostrados como deuses negros de perfeição e virilidade. Longe delas, são moradores, entre tantos outros, de um país paupérrimo e de péssima condição de vida. De deuses a vítimas. E as próprias personagens vão de poderosas a tristes, inseguras pelo conhecimento meio escondido de sua atração por algo que não é mais que uma imagem. Que existe unicamente no olhar.

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