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Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes

Teatro dos desejos

O cineasta francês François Ozon sempre encontrou no alemão Rainer Werner Fassbinder um mestre com quem partilha os ideais de um cinema teatral - que privilegia diálogos e interpretação às ações -, além de uma abordagem psicológica da (multi)sexualidade.

No caso, este primeiro Ozon (mais próximo das experiências radicais kitsch-cômicas de Sitcom do que do drama clássico que tem sido a base de seus filmes recentes) se apropria de uma peça que Fassbinder escreveu aos 19 anos de idade e nunca adaptou nem no teatro, nem no cinema.

Affiche

Affiche

O material é um prato-cheio para o diretor executar sua mise-en-scène de constantes tensões sexuais: a história se concentra num estranho quadrado amoroso composto de um homem por volta de seus cinquenta anos que seduz um transexual e depois um jovem garoto, que está noivo de uma outra jovem. Nem precisa dizer que todos eles se provocam, se irritam e transam entre si inúmeras vezes.

O contexto favorece tais trocas. Ozon manteve completamente a estrutura teatral, além de algumas passagens do texto original em alemão. Não há uma cena sequer que se passe fora de um apartamento obscuro e intensamente colorido. A mistura é curiosa, pois a força desses tons fortes de verde, azul e vermelho ganha tons sombrios perto das pequenas janelas, sempre fechadas.

Presos dentro desse espaço, nosso personagens não têm outra opção senão interagir. Esse sádico princípio de observar as pessoas se debaterem de um ponto exterior daria origem mais tarde aos reality shows, e aqui representa em si toda a ação. Não há desenvolvimento em particular dos personagens individualmente, somente a exposição progressiva dos conflitos que nascem entre eles, geralmente aos pares.

Gotas d Agua Sobre Pedras Escaldantes

Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes

O que é transmitido com maior maestria (por Ozon mas também pelo texto de Fassbinder) é a gradação da sedução, o início dos jogos sexuais. O homem que encarna confessamente uma figura paterna consegue, na mesma noite, seduzir o garoto - que se acredita - heterossexual, levá-lo para sua casa, fazê-lo se abrir sobre todos seus fetiches e em seguida estabelecer a relação sexual.

No ato seguinte (o roteiro mantém a divisão teatral), eles já estão apaixonados. Nem por isso os jogos param, muito pelo contrário: é quando se iniciam as interessantes relação de dominação e submissão. As dependências emocional, física e financeira dão o tom para diversas brigas e afrontas. É difícil não relacionar Gotas d’água sobre pedras escaldantes às obras surrealistas de Luis Buñuel, em especial O Anjo Exterminador (em que o espaço era um personagem importante que levava os personagens à loucura) e Esse Obscuro Objeto do Desejo (sobre uma garota que seduz constantemente um homem mais velho não para se entregar a ele, mas para se sentir desejada).

Gotas d Agua Sobre Pedras Escaldantes

Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes

Igualmente, o filme depassa as noções e rótulos sexuais. Não somente por mostrar homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais; mas também por não ver essas diferenças como entraves. A garota que descobre que foi trocada por um homem mais velho não se sente de modo algum incomodada pela súbita descoberta da homossexualidade do parceiro, ela o questiona unicamente pela traição em si. A narrativa põe em prática o ideal bissexual (ou pluri-sexual) da atração por uma pessoa independente de seu sexo.

Mas nada é idílico ou utópico neste mosaico. Nada de panfletarismo em prol de uma liberação sexual; o que importa aqui são as relações de poder e de manipulação inerentes aos relacionamentos. O filme é de uma crueldade absurda, quase cômica, em termos de desprezo pelo ser humano. Aqui, todos são reduzidos à suas capacidades de manter aceso o desejo alheio, o que justifica o espetáculo um tanto desesperado de personagens falsos, vazios e estranhamente naturalistas.

Ozon tem total consciência desse “absurdo plausível”, e o resume numa bela cena em que os quatro personagens dançam lado a lado, executando uma coreografia bizarra estranhamente conhecida por todos (elemento típico dos musicais, gênero cinematográfico artificial por natureza), enquanto a câmera desfila com mesmo interesse pela bunda dos quatro. Numa parada brusca da música, o home se impõe e grita aos outros: “Chega de música. Tirem suas roupas e me esperem na cama”. E, entre gritos excitados, eles vão.

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