Inferno
24 de abril 2007 21:27 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirPlástico
As imagens de Inferno são lindas. O filme é cheio de travellings, câmeras altas, imagens que rodam em torno de nossos personagens, sombras, reflexos, imagens caleidoscópicas, desfoques.
A beleza, no entanto, nem sempre é boa, ou melhor, nem sempre é sinal de construção. As belezas de Inferno são particularmente fáceis, algo que Pedro Butcher chamou de “mise-en-scène rebuscada”, ou seja, uma escolha afetada (ou kitsch, no caso) de mostrar as imagens. Procura-se sempre um ângulo oblíquo, um meio diferente de se mostrar o mundo, numa recusa imediata do realismo.
Esses recursos com cara de “filme de arte” (no sentido pejorativo do termo) talvez tenham uma justificativa, uma vez que Inferno é parte de uma trilogia idealizada por Krystof Kieslowski, diretor da Trilogia das Cores. Quem se lembra dos filmes deste diretor polonês constata a atmosfera intimista e onírica de cada um, mas se lembra também da originalidade (e talvez por esse motivo, a estranheza) de cada metáfora utilizada pelo diretor.
Danis Tanovic, diretor de Inferno, pareceu querer prestar homenagem ao diretor polonês e reproduzir seu jeito de filmar. Essa estratégia parece fadada ao fracasso, uma vez que uma cópia nunca vai ser igual ao original e o filme vai ser sempre apontado pelas suas falhas, para validar a matriz. Mesmo assim, mantém-se essa incômoda escolha de “homenagem”, que parece estampar no filme um selo de comprometimento ético.
O cartaz e a publicidade do filme apontam Inferno como a história de um trauma na vida de três irmãs. O tal trauma é mostrado logo no início, mas nunca explicado. Na grande maioria da narrativa, parecemos ver um filme episódico, que alterna entre as histórias distintas das três irmãs. Embora saibamos que têm a ligação familiar, elas não parecem ter nenhuma conexão afetuosa entre elas, e suas vidas não se intercruzam. A ligação entre as três se dá, portanto, nesse dado extra-plano, nunca em imagens.
São todas frustradas e descontentes com suas vidas afetivas. O diretor disse ter adaptado a frase de Sartre (“o inferno são os outros”) para “o inferno está dentro de nós”. Luis Zanin Orrichio, crítico do Estadão, disse que, de acordo com o filme, a frase seria “o inferno está em nossa relação com os outros”. Mais especificamente, penso eu, na relação com os homens. Os personagens masculinos de Inferno são todos adúlteros, pedófilos, ausentes, aproveitadores. Estranhamente, nenhum deles ama, quem ama são as mulheres. O inferno de Tanovic aponta para o macho contemporâneo.
E que inferno estranho, este aqui. Se a opção de abordagem do tema recaiu nas angústias pessoais, o filme opta por caprichar nos fatores externos às personagens, nas belezas acessórias já ditas. E quase não se percebe o trauma, ou sequer se reflete sobre ele, já que ele vai ser explicado somente no fim. Daí entendemos o que havia se passado na família das três, mas para quê? Para justificar e autenticar as angústias atuais? Estranha sensação de causa-conseqüência, de que “elas são assim porque passaram por um trauma”. Somos convidados a entender e a nos importar com as protagonistas no fim do filme.
E a cena final reúne, pela primeira vez, as nossas mulheres, num momento forte (com violinos retumbantes, em tom de suspense). A ação sugere um final “girl power”, uma ode ao poder, destreza (e crueldade, talvez) femininos. Mulheres são fortes, vingativas desde os princípios da história (Medéia é evocada para validar essa lógica) e assim serão. O inferno de Tanovic tem homens e mulheres que não se entendem nunca, além de uma câmera que circula em torno da gente buscando ângulos estranhos. Incômoda escolha de plastificar a vida de gente comum.