J’ai Toujours Rêvé d’être un Gangster
22 de abril 2008 13:08 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirContos imaginários de bandidos
O primeiro aspecto que salta aos olhos neste filme francês é a imagem em forte preto-e-branco, a luz estourada. Sobre essa estética, daria para se falar muito (incluindo termos como: pop, reciclagem, pós-moderno, Quentin Tarantino, colagem, fusão, sincretismo, Jim Jarmusch entre outros), mas há aspectos narrativos que tornam este filme uma experiência singular.
Affiche
A palavra “experiência”, de fato, parece se encaixar melhor nesta obra que a propra idéia de “filme”. Isso porque a intenção aqui é justamente de pesquisa de limites da estética, da narrativa, dos diálogos. J’ai toujours rêvé d’être un gangster (“eu sempre sonhei em ser um gângster”) é um filme de riscos, que tem como finalidade não necessariamente uma história a contar, mas um cinema a testar.
O título sugere a presença de gângsters, o que aqui é uma ironia para uma sucessão de ladrões amadores e atrapalhados. O diretor Samuel Benchetrit os dividiu em quatro episódios e um epílogo mais ou menos temáticos (um assalto, um seqüestro, um furto…), mais ou menos ligados entre si (através de alguns personagens reincidentes e de um restaurante que acolhe os ladrões de todos os episódios), mais ou menos cômicos (absurdos em tal nível que suscitam risos ou estupor), mais ou menos conclusas. A reincidência desses “mais ou menos” dão a idéia de quanto o tosco e a imprecisão são importantes ao filme.
O roteiro de cada episódio se assemelha incrivelmente ao conto literário, de modo a conferir à obra uma aparência de adaptação de contos que não existem. Em cada história, a visão minimalista-cronista se encaixa bem ao formato do conto, acima de tudo na conclusão de cada episódio, que normalmente deixa informações no ar e valoriza as sensações ao invés da conclusão de um conflito.
J’ai Toujours Rêvé d’être un Gangster
A maior parte de contos adaptados ao cinema sofre justamente para adaptar a conclusão, porque esse “deixar aberto” é pouco imagético e não se encaixa numa transposição imagética direta. J’ai toujours rêvé d’être un gangster, no entanto, constrói suas tramas de heróis fracassados em cima da idéia fundamental do patético e do desimportante; e o diretor sabe utilizar pequenos símbolos e momentos para criar imagens com teor vago e sugestivo.
Uma referência direta do filme é Sobre Café e Cigarros, essa pequena pérola de Jim Jarmusch que dedicava duas horas inteiras ao simple bate-papo de bar, em tornos de temas quaisquer. A versão francesa dessa proposta também se apóia na destreza dos diálogos (engraçados justamente por serem inusitados, como quando duas celebridades se encontram num banheiro público e dizem “quando eu mijo, eu penso”).
Uma diferença de tom, claro, opõe Jarmuch à Benchetrit, no sentido que o primeiro optava pela homogeneidade das histórias e do tom dos diálogos sempre nostálgicos e contemplativos, enquanto Benchetrit realiza mudanças radicais na estrutura narrativa (inclusão ocasional de estética do cinema mudo, de narração em off e de gags) e no tom. Sobre este último, o filme passa de um começo intenso e caminha à melancolia, à homenagem dos diversos gêneros homenageados e/ou parodiados, dentre os quais o filme policial, o filme de gângster, a comédia popular e o drama.
J’ai Toujours Rêvé d’être un Gangster
Enfim, já poderia se esperar que se chegasse a um resultado desigual e que não se esgotasse a pesquisa em questão – em função da amplitude do tema. Por isso, enquanto filme clássico, J’ai toujours rêvé d’être un gangster decepciona. Mas para quem espera ver uma obra diferente do que se encontra nas salas de cinema, obra esta que prefira inventividade à coesão, com diálogos afiados e personagens improváveis, este filme é um divertimento único.