La Fille Coupée en Deux

10 de agosto 2007 22:00 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Exercício do kitsch

O novo filme de Claude Chabrol chocou a crítica. La Fille Coupée en Deux marca um período em que o diretor, já veterano e sem precisar provar nada para ninguém, decide de divertir; a exemplo do que já tinha feito em seu filme anterior, A Comédia do Poder.

Affiche

Desta vez, ele conta novamente com o mesmo elenco com que trabalha normalmente, com a mesma equipe técnica e com o tema de sua preferência: a hipocrisia na burguesia francesa. No entanto, algo muda: Chabrol se põe desta vez a examinar suas referências, a reaproveitá-las juntas, testando a noção de gênero.

Para se ilustrar essa idéia, temos um início exemplar, onde uma garota ingênua e bela se vê apaixonada por um escritor mais velho, enquanto recusa as investidas de um garoto milionário e mimado. Poderíamos jurar estar num filme americano, talvez de Billy Wilder, com Audrey Hepburn no elenco. Todas as regras do início da comédia romântica estão lá: o amor à primeira vista, a música que pontua os momentos de emoção, os estereótipos da moça ingênua e do sedutor arrogante.

La fille coupée en deux

No entanto, Chabrol se mostra inteiramente consciente de sua referenciação, de modo a exagerá-la e torná-la evidente; algo como um elemento cômico em si mesmo. Vemo-nos num festival de linguagem cinematográfica já em desuso, como a utilização extensiva de zooms, fades e câmeras que, em busca da simetria perfeita, mexem-se interminavelmente para se adequar a cada virada de pescoço dos personagens.

O conflito desta linguagem antiga com o conteúdo contemporâneo gera uma surpresa, um certo desconforto que dividiu também a crítica, parte contente por ver o diretor realizar algo tão moderno, parte em deboche diante de um obra disforme. De fato, é um tanto cômico-embaraçoso ver uma garotinha ingênua se vestir de pavão e praticar sexo oral nos seus dois candidatos a príncipes encantados, enquanto a música alegrinha sugere um momento de leveza, de romantismo.

La fille coupée en deux

O filme inteiro é inegavelmente artificial. Cada elemento é utilizado para exagerar os estereótipos: a fotografia completamente desigual que faz do ambiente de trabalho uma coisa completamente branca, chata, uniforme; a direção de arte que veste todos os aristocratas com colares de pérolas; a montagem que interrompe a imagem no rosto dos personagens, após uma expressão dramática; e claramente o roteiro, que cria cenas de uma inverossimilhança extrema.

Por fim, esse estranhamento chega a seu cúmulo, com uma cena conclusiva gay-pop-kitsch, em que a garota dividida em dois passa por um momento pseudo-dramático rodeada de um festival de pirotecnia e de magia, com direito a fantasmas e aplausos. Este produto estranhíssimo de Chabrol parece, por fim, um exercício, uma reflexão sobre suas experiências, um teste sobre os limites da imagem; ao mesmo tempo que leve, debochado e auto-consciente.

2 Comentários para “La Fille Coupée en Deux”

  1. Cristina Laub dice:

    22 de setembro 2008 as 1:32

    Me parece que os dois homens foram ambos insensíveis a ponto de fazer a garota sentir-se “cortada ” em dois!Talvez seja isso que queira dizer a cena final.Ela nunca ficou dividida entre os dois , ela foi destruida por eles!

  2. Cristina Laub dice:

    22 de setembro 2008 as 1:42

    Na cena final , como num show de mágica ela aparece inteira novamente e sorrindo para todos !

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