La Môme

23 de janeiro 2008 22:27 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

O retrato do gênio

Ao se criar a biografia de uma celebridade, algumas questões naturalmente se impõem, principalmente no campo ético: qual lado mostrar sobre essa pessoa? Quais passagens de uma longa história devem ser mostrados, e qual esquecidos? Quanto do ponto de vista do diretor deve ser incluído neste filme que se dedica, enfim, a uma outra pessoa?

Affiche

No caso, a celebridade é Edith Piaf, cantora famosíssima e dona de uma história espinhosa: maltratos na infância, casamentos fracassados, várias mortes de entes queridos, dependência química… ignorar tudo isso seria talvez irresponsável, uma vez que essa história fez a cantora tal como ela foi.

No entanto, La Môme opta pelo extremo oposto, e se inscreve num grande grupo de biografias que pretende falar, acima de tudo, do ídolo ao invés da pessoa. Cada passagem mostrada serve a engrandecer a figura de Piaf, a torná-la maior e melhor. Cada cena é uma declaração de amor muito mais que um documento, e o fator emoção é fundamental na relação com o público.

La Môme

Alguns valores são ressaltados, e é interessante pensar o que se julga ser um boa pessoa. Piaf é considerada “ainda melhor”, ou “tão boa porque” passou por tal história, porque enfrentou todas as dificuldades. Seu sucesso tem ainda mais valor por ter vindo de um histórico de fracassos. Estão embutidas as noções tipicamente elitistas de que qualquer indivíduo com talento pode ser alguém na vida, de que há oportunidade para todos.

Logo, a montagem pula rapidamente de uma tragédia ou outra. Não nos interessa saber o que ela pensava, quais eram suas opiniões. Não interessa o que Piaf faz, mas o que sua história faz dela. Essa posição passiva guia toda a história, e a pobre figura enfrenta as piores provações. É difícil não enxergar nesse percurso uma visão religiosa (ainda mais sobre Piaf, fortemente católica); especialmente no confronto entre o ser puro e o mundo corrompido.

La Môme

Outra idéia curiosa é aquela que se constrói sobre o artista. Um certo mito contemporâneo separa artistas de pessoas comuns, e os isola numa bolha regada à drogas, libertinagem, “espírito livre”. Esse preconceito um tanto depreciativo e excludente determina a maioria das biografias sobre “gênios”, e essa não é a exceção. É claro que Piaf tinha uma personalidade forte (“se eu não puder fazer exigências, então de que me serve ser Piaf?”, ela dizia), mas a escolha de só mostrar essa figura sangüínea e instável a inscreve no grupo de talentos que tiveram um final trágico porque não conseguiram levar a vida de uma pessoa normal.

Logo, a biografia da cantora se transforma num filme-verbo, um filme-ação. Essa construção emocional se foca diretamente em todos os vários fãs de Piaf, e é esse o caminho que o restringe como filme extritamente comercial. Este não é um documento para se conhecer a história de uma pessoa (uma vez que muitas informações são subentendidas por serem julgadas parte do conhecimento de todos), mas para se homenagear alguém que já se conhece. La Môme é um filme de fã para fã, e o objeto retratado é o amor pela artista, muito mais do que a artista em si.

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