La Question Humaine

9 de outubro 2007 22:09 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Psicologia dos vencedores

Na tela, a imagem se abre com uma sucessão de números gravados: 367, 369, 371… essa ordem se mantém por um bom tempo, enquanto a música profunda atesta a gravidade do tom. Logo vemos vários homens vestidos de modo exatamente igual dentro de uma empresa. Eles são mostrados de modo indistinto, o que começa a dar volume à idéia inicial de enumeração.

Affiche

Os planos seguintes apresentam uma estética única, perfeitamente simétrica, composta, asséptica. A luz é sempre homogênea, imutável e dura, de modo a afirmar o peso enorme de cada cena. As pessoas, como os lugares, são mostrados com olhar frio e analítico, ilustrando uma idéia de perfeição tão importante à narrativa que se desenvolve.

No centro desta possível trama à la George Orwell e seu 1984 está Simon, psicólogo de uma empresa petroquímica multinacional, responsável pela seleção de novos funcionários bem como de eventuais demissões. Ele é o tipo de homem com aparência sempre impecável, gel no cabelo e rosto invariavelmente sério. À noite, no entanto, ele abusa de cigarros, álcool, música eletrônica e mulheres.

Ele é convocado pelo vice-presidente da empresa para julgar justamente o estado de saúde de seu superior, em possível depressão após a morte do filho. O vice-diretor é uma figura um tanto estranha, que fala sempre em tom de mistério, e se refere à firma como uma máfia secreta e poderosa. O diretor, por sua vez, é um homem grandalhão que chora ouvindo música clássica, sinal dentro do filme de que algo nele realmente não vai bem.

Essas criaturas são todas mostradas de modo macabro, sinistro. A estética deste drama é o suspense, e cada diálogo parece anteceder a irrupção de uma descoberta ou de um susto vindo de algum canto da tela. O diretor Nicolas Klotz parece ter respeito pelo material que trabalha, e cada plano pede atenção, porque se trata de seres humanos em tela.

La question humaine

Na verdade, o filme não trata das pessoas normais que vemos andando na rua, se trombando pelas calçadas; mas sim os empresários, os poderosos, e mais especificamente a maneira de pensar que impera neste sistema, e como esse molde teria se imposto sobre personalidades tão diferentes forçadas a se adaptar para “jogarem o jogo”. La Question Humaine aborda diretamente a história da formação de grandes empresas, bem como o funcionamento individualista e segregacionalista do capitalismo.

Uma inovação é a forma de abordagem: ao invés do enfoque desse processo de desumanização pela costumeira via social (as esteiras de produção, o fordismo, a falta de consciência do produto final, os homens enfileirados batendo cartão), o filme se apóia na via psicológica. É na psique humana que se percebe a introdução gradual do modo de pensar maquínico, robotizante.

Simon concentra todas essas contradições; ele mesmo um retrato dessa hipocrisia. Quando pedido para investigar o diretor da empresa, quem está sendo de fato analisado? O diretor, de personalidade suicida? Ou ele mesmo, através das expectativas que se concentram sobre sua função? Afinal, Simon foi contratado não exatamente para checar possíveis indícios de perturbações, mas unicamente para provar a existência deles. Não há espaço para uma enventual constatação de que pode se tratar unicamente de “um homem cansado”, como afirma o psicólogo, pois fica claro que ele é apenas uma peça destinada a servir à uma manipulação do poder.

É neste momento que novos documentos surgem para atirar a atenção para o próprio vice-diretor, que descobrimos ter ligações com o nazismo e com os campos de concentração. Num dos momentos mais fortes do filme, Simon lê um manual de instruções longo e detalhado sobre os caminhões destinados a carregar judeus ao extermínio. Nicolas Klotz aproveita dessa força e dessa crueldade ao permitir a leitura inteira de medidas de janelas, velocidade permitida, fechamento de portas e acomodação da carga para evitar “ruídos indesejados”.

La question humaine

La Question Humaine se apóia no pensamento nazista para explicar o funcionamento do capitalismo liberal, num tom severo e profundo. Simon logo percebe a relação entre as regras nazistas e as de sua empresa: o tratamento frio, o pensamento exclusivo ao lucro, aos números e a perda da “questão humana”, título do filme e elemento tão caro à personalidade sensível do diretor da empresa.

Através de outra figura “sensível”, um músico, tem-se uma belíssima descrição da alienação gradativa dos funcionários, que perdem seu senso crítico, suas vontades e suas ambições para se atirarem de cabeça nesta engrenagem. Eles se julgam, acima de tudo, felizes, já que a empresa prospera. O indivíduo é aniquilado, e só existe o poder maior e onipresente do capital.

Neste mesmos delírios pessimistas e sombrios, La Question Humaine se fecha com um pequeno poema perturbador feito através de palavras que funcionam igualmente bem à pretroquímica e aos campos nazistas. Elas são muitas; envolvendo nomes de pessoas e de peças de máquinas, entonados sem distinção. O filme se fecha nesta aproximação, incômoda e polêmica, destinada a espelhar os submundos do poder.

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