Justiça com as próprias mãos
“Vingança chama vingança”, diz o slogan do filme. Nada mais claro: este novo filme de Robert Guédiguian aborda a idéia de remorso, as ações do passado e o forte desejo de justiça. No centro dessa trama está Muriel, mãe solteira que trabalha calmamente numa perfumaria até o dia em que é avisada do seqüestro de seu filho. Ela não se desepera nem chora, unicamente planeja os meios de pagar o resgate.
Affiche
Se, num seqüestro em que são enviadas fotos de um revólver no pescoço do garoto, a mãe não chora o drama de seu filho único é porque ela deve ser muito durona. É este o caso de Muriel, que ainda tem uma tatuagem no pulso (com os dizeres “Lady Jane”) para confirmar que com ela não se brinca.
E os motivos de sua reação contida vêm do fato de que a mulher realmente tem uma longa lista de inimigos. Isso porque ela fazia parte de uma gangue à la Robin Hood que literalmente roubava dos ricos para dar aos pobres (a cena de uma “entrega” de casacos de pele na periferia abre o filme). Ela logo chama os velhos colegas de gangue para a ajudarem a resgatar seu filho.
Lady Jane
Os comparsas são igualmente sujeitos de aparência pacífica, mas que voltam à vida de roubos com a facilidade de quem nunca realmente esqueceu as atividades passadas. Enquanto um pescador esconde drogas e armas na garagem de casa, outro sujeito tranquilo se revela um cafetão. A volta ao roubo se efetua, portanto, em solidariedade à Muriel, mas também para fugirem de suas rotinas pouco interessantes.
Este trecho inicial do filme mostra um bom domínio técnico de Guédiguian, que faz um filme exemplar em termos de ritmo, tom e enquadramentos. Se a credibilidade desses personagens enquanto ladrões perigosos é contestável, pode-se ao menos dizer que Lady Jane se adapta com destreza às regras do filme policial.
É com a intervenção do drama que a narrativa muda de figura. O resgate não dá certo, e ainda encadeia uma cena de assassinato de uma crueldade ímpar dentro do cinema (cena esta que vai ser reprisada posteriormente, em sinal do masoquismo do diretor). No primeiro instante se instala o luto, e os sentimentos antes subentendidos passam a ser explicitados: a dor da mãe, a paixão antigas de ambos amigos por Muriel.
Lady Jane
Essa momentânea queda de ritmo precede a intenção de vingança estampada no slogan. O trio se fortalece e, sem mais abandonar o tom dramático, o filme acompanha a perseguição do assassino. Guédiguian passa a usar o interessante efeito de câmeras externas para simular o olhar do vilão, ou seja, nossa protagonista é freqüentemente observada através de vitrines afim de que o espectador seja lembrado que ela ainda é perseguida.
Através de uma investigação um tanto rápida, os responsáveis são encontrados e várias verdades são estampadas. A conclusão é provavelmente a parte mais fraca de Lady Jane, porque a maneira encontrada para se atar todos os fios abertos consiste na verbalização de ações e sentimentos. Assim, bandidos e mocinhos reconhecem suas culpas, falam de seus passados e percebem, juntos, que a vingança não leva a nada. E fim de filme. E para quem ainda não entendeu a mensagem, Guédiguian ataca, antes dos créditos, com um provérbio chinês sobre borboletas que se batem nas janelas enquanto a porta ao lado está aberta. As borboletas, claro, representando aqueles que se vingam.
[...] de abertura Canções de amor 22:00 Satã Dia 22, Domingo 13:00 O advogado do terror 15:30 Lady Jane 17:45 A última amante 20:30 O segredo do grão Dia 23, Segunda 18:00 As aventuras de Moliére [...]