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Le Grand Alibi

Agatha Christie em versão drama

Menos de dois meses após a exibição de L’Heure Zéro, é a vez de outra adaptação da escritora Agatha Christie ganhar os cinema franceses. Desta vez, é Le Grand Alibi (”O Grande Álibi”) que recebe o apóio da associação que porta o nome da escritora e que, aparentemente, impulsiona o consumo em massa de suas histórias, seja em livro ou filme.

Affiche

Não é nada fácil para um diretor embarcar num projeto deste tipo, uma vez que é difícil impor uma visão pessoal às diversas fórmulas típicas da escritora, bem como complexificar os personagens que, nos livros, nunca passam de meros acessórios.

L’Heure Zéro (ler crítica no site) assumia, justamente, a pouca profundidade dos potenciais assassinos é criava um painel quase cômico de seres histéricos, maquiavélicos ao extremo e profundamente sombrios. O diretor havia então exteriorizado toda a maldade, de modo que casa personagem-acusado tinha algum tique, se vestia de preto ou lançava olhares cheios de desejo ao jogo de facas na cozinha.

Pascal Bonitzer, no entanto, decidiu corajosamente desenvolver um drama. Contra a estrutura narrativa rígida da obra de origem (que sempre impõe um assassinato logo no início, e após uma sucessão de pistas falsas até a revelação do culpado no final), a cena da morte, pontapé inicial da narrativa, demora bastante a ocorrer.

Antes disso, o filme vai calmamente detalhar cada personagem e bem explicar a complicada ciranda amorosa que circunda o futuro cadáver da história. Interessante lembrar que, para Christie, ninguém é mais perigoso que um apaixonado não-correspondido, e essa obra é a prova viva deste princípio, ja que há pelo menos quatro mulheres que nutrem paixões (declaradas ou não) pelo morto; e que teriam, portanto, motivos para serem consideradas assassinas.

Le Grand Alibi

Este fator deposita praticamente toda a força do filme nas personagens femininas, que se opõem aos poucos homens, fracos e manipuláveis. Diferentemente destes, as mulheres seriam capazes de fazer de tudo pelo grande amor, o que as transformariam em víboras perversas, impiedosas mas, ao mesmo tempo, revistidas de uma aura de vítima (crimes passionais são sempre, de um certo modo, perdoados pela nobreza do sentimento que os move).

Quando a cena do assassinato finalmente se produz, ela ganha pouca atenção: o tiro é ouvido ao longe, e o corpo é visto por segundos apenas, e ainda por cima em fragmentos. Não interessa ao diretor o impacto da imagem de um cadáver, mas as conseqüências deste nos envolvidos. No caso, há uma paixão aberta pela psicologia, em especial a psicanálise, como estratégia de construção dos personagens.

Cada um dos vários potenciais assassinos tem traços particulares que não constituem unicamente motivações para o crime em questão, mas traços gerais que fariam deles pessoas vulneráveis e capazes de cometer um ato impulsivo. Mais do que cruéis assassinos, todos aqui são fracos, vítimas de um amor ou do ciúme.

Le Grand Alibi

As investigações prosseguem, e pode-se dizer que nunca o elemento policial foi posto em posição tão secundária. O policial encarregada da investigação age pouco, e suas interferências são geralmente improdutivas. Por certos momentos, Le Grand Alibi quase esquece a existência do assassinato.

Logicamente, o final vem nos lembrar que o nome de Agatha Christie paira sobre o filme. Uma seqüência astuciosa aparece para indicar o vencedor, aliás, o culpado da história. Neste momento o público relaxa e avalia seu grau prazer nesse jogo (tinha acertado o assassino? chegado perto?). Mesmo para quem não entrou na sessão pela aposta, resta a satisfação de ver que Bonitzer chegou a um resultado um tanto satisfatório, embora (ou talvez justamente porque) se afaste das imposições da adivinhação e do suspense.

Comentários

Um comentário para “Le Grand Alibi”

  1. A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados…

    A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
    http://acasatorta.wordpress.com

    Cinema é Magia
    http://cinemagia.wordpress.com

    Um abraço.

    Por Tommy Beresford

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