Le Premier Venu

22 de abril 2008 13:15 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Os passantes sem destino

A primeira sensação despertada por esse filme francês pode ser a estranheza. O espectador é jogado no meio da briga de um casal jovem no qual se percebe não haver amor ou ódio, somente um certo desprezo. Ao contrário de explicar, o filme corre para adicionar mais informações: o jovem pretende partir; ele teria abandonado sua esposa e filha pequena; ele maltrata o próprio pai; e sua nova namorada, com quem vemos brigando, teria sido estuprada por ele.

Affiche

Affiche

A montagem contribui para essa absência voluntária de contexto, cortando rapidamente de uma ação à outra, de um diálogo ao outro. Muitas informações não serão fornecidas em momento algum, dando a impressão que para o diretor Jacques Doillon, o que importa realmente é o jogo de atores, de atmosferas de desconforto e de diálogos realistas (e balbuciados, repletos de palavrões, meias-palavras e sussurros pouco compreensíveis).

Aos poucos se esboça timidamente uma história, uma certa ciranda hardcore-classe-média-baixa na qual a garota se apaixona por um tipo malvado, cuja ex-esposa tem um caso com um policial, que se apaixona pela garota e é amigo de infância do tal tipo malvado. Ou seja, o aspecto de inconstância da imagem e da narrativa dão o tom deste “primeiro filho” a que se refere o título.

Mas não há amor romântico nessa história. A intenção naturalista da obra opta por personagens que pensam em sexo, em dinheiro, em matar o tédio como principais motivos para se ter uma relação com alguém. Esse aspecto “desleixado” se traduz, esteticamente, por imagens intencionalmente “feias”, sem profundade de campo, com iluminação simplista e enquadramentos desiguais. Assim como os seres humanos imaturos, tudo neste filme lembra um grande rascunho.

Le premier venu

Le premier venu

Em função deste caráter, o filme dá prioridade para a instabilidade e para o constante movimento aleatório de seu quarteto central, nos sentidos simbólico e literal. Simbolicamente, vemos homens e mulheres sem grandes esperanças na vida, com dificuldades financeiras e muita raiva contra as instituições, o ser humano e o amor.

No aspecto concreto, a noção de movimento se traduz por personagens que não páram de andar. Estranha coreografia, essa de Doillon: os casais formados e deformados conversam muito enquanto caminham, enquanto se movem de um ponto a outro sem objetivo aparente. Eles vêm e vão à lugar algum (a própria noção de “casa” é destruída pela presência constante de albergues, quartos emprestados e esconderijos). No mundo de Doillon, as pessoas não pertencem à lugar algum, e por isso se deslocam em busca de sentido em meio um cenário estéril e vazio.

Le premier venu

Le premier venu

Le premier venu é essa mistura interessante de intenções naturalistas e composições artificiais, de filme dramático e policial. Esses jovens imaturos, pelos quais a câmera tem uma afeição especial, se envolvem em roubos, estupros, prostituição… mas são perdoados por “não saber muito bem o que fazem”, parece dizer o filme.

Por fim, esta obra parece uma experiência curiosa. Ele não é belo porque recusa sê-lo, mas também não é completamente realista, nem pretensioso, nem segue uma estrutura clássica. Ele é um tipo de exercício que faz da imprecisão de seus personagens a sua própria, numa balada voluntariamente disforme de almas perdidas.

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