O fim do mundo
E se você fosse a sua casa de campo e encontrasse uma família estranha morando no lugar, arma em punho? Com essa cena inicial, Michael Haneke nos joga num pesadelo intitulado Le Temps du Loup. Com a “intrusão”, o pai é morto, mas vemos unicamente o sangue que espirra no rosto de Anne (Isabelle Huppert). A partir disso, ela vaga com os dois filhos por uma cidade deserta.
Affiche
“Você não sabe o que está acontecendo aqui?”, perguntam os poucos vizinhos que ousam dar as caras, mas não oferecem ajuda. “Você não deveria ter vindo”. Pois é, ela não sabe o que acontece, e o público tampouco. No entanto, de um momento a outro Anne e seus filhos se encontram sem um lugar para dormir, passando por vários campos onde não há pessoas, não há casas ou ruídos. Eles estão completamente sozinhos.
Haneke favorece a sensação de falta de referências. Não conhecemos a época nem o local preciso da história. O diretor chega ao ponto de nos negar mesmo a única referência obrigatória no cinema, no caso, a imagem. Ele passa a filmar as errâncias solitárias dos três seja num dia repleto de névoa (e nunca se viu fotografia tão propositadamente esbranquiçada, feia, que esconde ao invés de mostrar), ou então na noite de um escuro absoluto. Os três não choram o absurdo da situação, nem a recente morte do pai/marido. Eles parecem brutalizados pela atmosfera de campos vastos e centenas de animais mortos pelo caminho.
E Haneke manipula, como sempre, as informações fornecidas a seu público. Ele chega a construir planos longos nos quais se vê unicamente um minúsculo ponto luminoso ao longe, o que se supõe ser uma fogueira acendida por eles. Enquanto isso, o filho desaparece e são unicamente os gritos, a sensação de correria trazida pelo som que nos transmetem a angústia típica da situação. O diretor mostra aqui, mais do que em qualquer outro filme, sua paixão pela narrativa através do som ao invés da imagem.
Le temps du loup
Logo Anne descobre, estranhamente, que há outras famílias em situação semelhente. Uma dezena de pessoas se agrupa num galpão industrial vazio, esperando inutilmente a vinda de um trem que os salve. Como eles teriam chegado até ali? Não se sabe. Sabemos apenas que, logicamente, há um homem poderoso que exige quantias dinheiro e outros objetos em troca da “estadia” dessas pessoas. Ele é o patrão que ao mesmo tempo alimenta a ilusão do trem salvador, e que explora as famílias ao ponto de violentar as mulheres e racionar o uso de água.
Engraçado pensar que essa mesma sinopse, na mão de qualquer outro diretor, viraria um grande filme-catástrofe à la Extermínio, com ataques virulentos à decadência da sociedade contemporânea. Haneke, no entanto, consegue se afastar o máximo possível de qualquer emoção, e filmar atrocidades com uma placidez angustiante. A maioria dos planos é calmo, fixo; negando a noção de ritmo acelerado que faria o espectador pular da cadeira e torcer pelos personagens. Aqui, reina um distanciamento atroz, um absurdo kafkaniano, quase surrealista. A história é propositadamente arrastada, e nega evoluções ou ações que modifiquem o rumo dado, ou seja, atinge-se o ponto curioso de um desespero monótono.
Le temps du loup
Haneke assina com Le Temps du Loup seu filme mais hermético. Contra a febrilidade de Funny Games ou a coerência narrativa de Caché, o diretor faz uma obra amarga, que recusa qualquer contato com o público, que não é convidado a gostar nem desgostar da obra. Certamente se trata também de uma crítica da sociedade, mas acima de tudo Haneke faz um anti-filme com sinopse hollywoodiana recheado de todos os elementos que são caros ao seu cinema: a imagem fora de quadro, o som como narrador e a irônica perversidade do “destino”.
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