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Le Voyage du Ballon Rouge

A arte no dia-a-dia

Toda obra de arte implica um grande trabalho anterior à sua conclusão: para o filme existem as filmagens, a montagem, os truques; para o teatro existem o texto e os ensaios; para a pintura existe o processo do desenho, das cores, das tintas… este novo filme de Hou Hsiao Hsien se dedica justamente a mostrar o dia-a-dia da arte.

Affiche

Nele, Juliette Binoche interpreta uma marionetista extremamente atarefada que contrata uma babá chinesa, estudante de cinema, para cuidar de seu filho pequeno, Simon. O ambiente dessa casa é dominado pela arte: a mãe treina com sua marionetes, a babá segue Simon com sua indissociável câmera de vídeo, enquanto este tem aulas de piano.

Os três, por sua vez, são seguidos por um grande balão vermelho que passeia livremente por Paris: ele anda pelos parques, por dentro dos metrôs e assiste constantemente à vida desses três personagens através da janela. A primeira cena em que vemos o balão é um tanto ousada: ele nós é mostrado de perto, de longe, rodando, tomando a cidade… é um objeto presente mas que circula entre os homens sem ser notado. Ele é, junto do nosso trio de protagonistas, uma verdadeiro personagem.

Como bom personagem, ele também passa por suas “transformações”. Dessa primeira cena poética e verossímil, a babá nos revela, em seu computador, o truque de um curta-metragem que ela faz e que, logicamente, se chama “o balão vermelho”: o balão nunca esteve lá. Com a dificuldade de se acompanhar a trajetória imprevisível do objeto, a câmera filma livremente a cidade e o balão é inserido posteriormente, por computador. Trata-se simplesmente de um truque.

Le Voyage du Ballon Rouge

Essa revelação do curta-metragem, que é logicamente a mesma do filme que o contém, tem por finalidade explicitar o mecanismo da arte, os artifícios técnicos do processo artístico. Para as aulas de piano há cenas do grande instrumento sendo aberto e afinado; para as marionetes há ensaios e consertos (“cuidado porque tua mão está aparecendo”, ouve-se). Hsiao Hsien parece nos dizer que toda bela obra de arte deve ser compreendida em seu processo de fabricação, do uso de instrumentos à implicação do artista.

Quanto a este criador da obra de arte, pode-se dizer que o diretor toma o cuidado de tratá-lo como um trabalhador comum, esforçado. Nada da imagem do gênio perturbado e excluído do mundo: na Voyage do Ballon Rouge, a arte faz parte de uma rotina normal. Esses artistas são vistos andando pelas ruas, fazendo compras, pagando o aluguel, num cotidiano que, pelos olhos de Hsiao Hsien, é sempre barulhento e caótico. Para intensificar essa opção, o diretor apela para um uso muito especial de som e imagem.

Primeiro, pode-se dizer que sua câmera está sempre distante dos personagens. Contra a quase obrigação do cinema moderno de contextualizar os personagens através de imagens de rostos e expressões, este filme toma a liberdade de se afastar e observá-los num conjunto, no movimento de seus corpos mais que nas expressões do rosto.

Seu enquadramentos, igualmente, optam por um intermediário entre a imagem estática e o travelling (movimento da câmera): nosso personagens são sempre acompanhados por uma imagem livre e fluida; e mesmo quando estão parados, a câmera desliza lentamente entre um e outro.

Para esta calma recusa da estabilidade, o filme dedica grande atenção às interferências do ambiente: talvez pelo opção de distanciamento, cada personagem é mostrado em meio ao caos urbano, e ele se encontra sempre atrás de carros, parcialmente encoberto por cabines telefônicas, placas de trânsito, vitrines de lojas… existem invariavelmente obstáculos entre a visão oferecida ao espectador e àquela que pertence aos personagens do filme.

Essa interferência se aplica acima de tudo ao som, que recebe um tratamento impressionante. Nestas cenas de caos e barulho das ruas parisienses, a babá conversa com Simon, mas quase não entendemos o sujeito da conversa. Os ruídos são propositadamente (e apoiados na verossimilhança) mais altos e incômodos, e nos deixam a impressão de que os diálogos que ouvimos são corriqueiros, e nada contém de especial.

Le Voyage du Ballon Rouge

Do mesmo modo, muitas vezes as conversas entre duas pessoas negam a lógica do “plano-contra-plano” (imagem que alterna entre o rosto de cada personagem, de acordo com a fala de cada um): freqüentemente o som não corresponde à imagem mostrada, e alguns diálogos acontecem enquando a imagem está longe, percorrendo cantos da casa e mostrando objetos que não são temas da conversa.

Esse trabalho inventivo e livre se estende à trilha sonora: por vezes as músicas tocadas no piano continuam a tocar mesmo após o fim das aulas de Simon. A música se desenvolve e se une a outras cenas, sem ser interrompida, onde ela vai se unir a novos ruídos e inclusive a novas trilhas, simultaneamente.

Le Voyage du Ballon Rouge constitui, através dessas opções ousadas, uma complexa homenagem à arte e ao artista. Da ousadia no retrato dos personagens (e das artes que cada um representa: música, teatro, cinema), o autor ousa na técnica e no conceito do seu próprio filme. Hsiao Hsien elabora uma poesia tão bela quanto intelectual; num deleite estético e conceitual acessível a poucos.

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