Cinema virtuoso
Para se discutir este filme francês, primeiro é necessário falar um pouco do que são os chambres de bonne em Paris. Esses quartinhos minúsculos, geralmente situados nos últimos andares dos prédios, eram destinados antigamente às empregadas domésticas das famílias que moravam nos outros andares. A maior parte dos chambres de bonne têm banheiros coletivos no corredor, e às vezes cozinha e ducha também. Hoje, ao invés de domésticas, os moradores são em geral estudantes sem dinheiro ou senhores de idade que moram sozinhos.
Affiche
É um destes senhores o protagonista de Les Toits de Paris. Esquecido pelo filho, Marcel vive uma rotina morna, na qual os pontos altos são visitas à piscina pública e almoços com um vizinho. De resto, ele fica em seu quarto, olhando pela janela, alimentando a saudade da família.
Como a solidão é o tema essencial, o diretor Hiner Saleem optou por um filme literalmente mudo. Poderíamos contar cerca de dez falas em toda a história; o que importa à Saleem são gestos, olhares, murmúrios. Michel Piccoli, no papel principal, tem que desenvolver toda sua expressividade para transmitir, em suspiros unicamente, a falta do filho, a atração por uma garçonete ou a tristeza pelo vizinho que parte.
Engraçado notar que, mesmo quando acompanhado, Marcel não fala. Para propor à um amigo que se sente em uma cadeira, ele estica os braços em direção ao móvel e inclina a cabeça na mesma direção. A proposta inicial, libertária e ousada por recusar a conversa, se revela ironicamente uma auto-restrição. Se a idéia se revela coerente nos momentos de solidão, ela parece excessiva quando os personages estão acompanhados. É angustiante ver pessoas que têm tanto a dizer serem obrigadas pelo roteiro a se calarem.
Desconheco a trajetória cinematográfica de Saleem, mas essa escolha me faz pensar nas escolas de cinema, em que se aprende desde o início a vilanizar os diálogos explicativos. Afinal, cinema é imagem, e o som está lá como complemento, não? Os cinemas mudos não eram muitos bons enquanto tais? Essas idéias de pureza, de não “contaminar o cinema” parecem subversões típicas de diretores acadêmicos e iniciantes. Embora sempre bem-vindas enquanto recusa à narrativa tradicional do mainstream, elas se prendem na simplicidade de se “fazer o contrário”, ou seja, contra os diálogos propõe-se o mudo. As antíteses operam, nestes casos, uma lógica tão simplória quanto à do elemento que se recusa copiar.
Les Toits de Paris
Além disso, alunos de cinema aprendem a detestar as ações dramáticas. Essas “viradas de roteiro”, grandes momentos que mudam as vidas dos personagens, fazem parte de um cinema clássico, quadrado, de manuais de roteiro. Les Toits de Paris não tem nenhum conflito, nenhuma mudança. Marcel começa como termina, numa trajetória linear como sua vida. Para uma vida tediosa, utiliza-se da mesma estrutura: escolhe-se a apropriação da realidade ao invés de sua recriação.
Numa arte essencialmente ficcional (mesmo documentários não escapam à ficcionalização do objeto retratado), a idéia de se apropriar e de se transmitir exatamente o real parece ingênua, utópica. Grandes são os diretores que conseguem criar uma impressão do real, desenvolver uma imagem que corresponda à vida fora das telas. Pessoas reais podem ficar cinco minutos paradas, sem dizer uma palavra, enquanto essa mesma imagem transposta à tela cria um peso muito maior, um significado diferente. Isso porque talvez o específico do cinema não seja a imagem, mas o tempo (no que se inclui montagem e elipses). Um tempo cinematográfico deveria representar o tempo real, e não copiá-lo.
Seria injusto não ressaltar no filme algumas conseqüências interessantes da estética escolhida. Ao ignorar ações e sons, qualquer pequeno gesto salta aos olhos: as texturas de pele, os recorte de luz nos cantos do quarto, as pequenas movimentações de Marcel em seu espaço limitado. O filme capricha nessa poesia do comum, na abstração da vida concreta.
Les Toits de Paris
De qualquer modo, longe de julgamentos qualitativos, o que impressiona em Les Toits de Paris é a reunião de todas as características de um cinema puro, bom, com doces desejos de subversão. Seja no bom ou no mau aspecto do termo, o filme é virtuoso, idealista, e suas boas intenções fazem do ponto de partida um aspecto curioso em si, capaz de despertar tanta atenção quanto a própria execução.
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