HOME » Cinema » Resenhas »

L’Heure D’été

O valor da memória

O novo filme do diretor Olivier Assayas gira em torno de uma casa. Há os seres que habitam e circulam pelo local, há as histórias vividas, e acima de tudo há o espaço físico: uma grande construção de uma família rica, um patrimônio milionário de uma beleza estonteante.

Affiche

L’heure

O primeiro segmento dessa “hora de verão”(como sugere o título) se concentra na construção do mito dessa casa. Nós a conhecemos durante o aniversário da avó de 75 anos; momento no qual todos os filhos vêm de seus destinos variados (França, EUA, China) para celebrarem e se atualizarem das vidas alheias.

Essa festa parece uma felicidade pura, de modo que a narrativa se mascara para nos deixar perceber unicamente a alegria do local. Aos poucos, começamos a perceber melhor a relação entre esses filhos: todos na casa dos quarenta anos de idade, eles mal sabem da profissão um do outro e mal conhecem seus companheiros. Eles se amam, mas é claro que suas vidas tomaram rumos distantes ao ponto do contato único se realizar justamente nessa festa anual.

Quando o filhos vão embora, logo os vastos cômodos ficam unicamente preenchidos pela figura franzina da avó e sua empregada doméstica. Uma música súbita e triste vem insistir sobre o peso da solidão. Importante lembrar que muitas conversas durante o aniversário versavam sobre a morte da avó: em razão de sua idade, ela já pensava eno patrimônio da família (e de um tio, um pintor famoso) e na partilha dos bens.

L’heure d’été

Pois bem, essa discussão sobre a morte a atrai com rapidez, e poucos dias depois ela morre. Logo, essa casa se transforma aos olhos da narrativa: de espaço de imagens da infância, ela vira um bem. Quanto custa? Como vender cada quadro, cada cadeira? Mesmo que um dos filhos resista, ele é logo vencido pelos outros que nos lembram que o dinheiro é importante, e que sem a mãe eles não teriam motivos para voltar.

Essa segunda parte se destina a desconstruir o mito construído no início. Em poucas cenas, dezenas de especialistas se cruzam pela casa e avaliam peças, falam de destinações de casa objeto… quase nada possui valor sentimental aos olhos dos três filhos. Pouco a pouco, essa casa perde todo o sentimento, para virar potencial econômico… e objeto de museu.

Importante saber que L’Heure d’été foi feito sob encomenda pelo Museu de Orsay, em Paris, e é inevitavelmente este o espaço que vai acolher, na narrativa, algumas das valiosas peças herdadas. Ao invés de funcionar como propaganda do museu, Assayas propõe uma questão interessante: como pode um objeto pessoal tornar-se público? Quais são os processos burocráticos e emocionais envolvidos?


Logo, de malvados e interesseiros, o trio de filhos volta a disputar a afeição do público através de sua filantropia. Uma cena exemplar expõe uma escrivaninha que é retirada do quarto diretamente para um canto de destaque no museu. Uma guia do local passa e explica à alguns turistas as formas, a história, o design… todos elementos que não passavam pela cabeça dos filhos, que assistem surpresos a uma parte da vida deles ser instrumentalizada, despersonalizada. “Uma escrivaninha não deveria estar num museu”, diz um dos filhos, “e sim na sala de casa”.

No último terço do filme, voltamos a nos deparar com a casa, que é povoada desta vez pelos filhos dos filhos, ou seja, pelos netos da avó falecida. Eles são adolescentes e transformam o lugar num ambiente de festa, e nada mais estranho que ver algumas estátuas clássicas restantes vibrarem ao som da altíssima música rap das caixas acústicas ao lado.

Esse retrato de uma nova geração vem nos mostrar, não sem um tanto de amargura, o caráter cíclico que domina as relações dessa família: os pais distantes reproduzem com seus filhos a criação que tiveram, e um episódio relacionado à maconha vem lembrar que alguns pais estão à quilômetros de distância do cotidiano de seus filhos.

Neste momento, a casa nos é mostrada pela última vez, mas simbolicamente por fora, através de um casal de adolescentes que pulam o muro e se encontram num vasta vegetação exterior. A lembrança da avó vem à mente, mas a garota logo a esquece, mais preocupada em encontrar um lugar mais íntimo para ficar com seu namorado.

Da bela casa alegre do início, ela se transforma em dinheiro, em objeto de apreciação e, finalmente, em ruínas para os netos cujas lembranças no local ainda significam pouco. A memória se metamorfoseia, mas acima de tudo ela se deteriora, perde seu valor, seu caráter humano. E, pela visão de Assayas, esse desprezo pelo passado só tende a piorar.

Comentários

Nenhum comentário para “L’Heure D’été”

Comente