L’Heure Zéro
18 de novembro 2007 22:14 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirQuem matou?
Uma dezena de pessoas numa mansão e, de repente, alguém é encontrado morto. A lógica é simples: quem é o assassino? L’Heure Zéro é adaptação de um dos mais de 80 livros que escreveu Agatha Christie, apoiando-se sempre nessa lógica simples de assassinatos e potenciais criminosos.
Affiche
Por que tamanha sedução do público por essas tramas formulaicas e repetitivas? A estrutura se assemelha à de um jogo, onde a regra única é a de adivinhação. Incomum no cinema, há a noção de resultado (acerto-erro), e a recompensa da revelação final. Engraçado, mas os mais de 100 minutos de um filme do gênero são todos voltados para a descoberta nos instantes finais. Nesse trajeto todo, basta se encarregar de se criar e desfazer pistas.
Pouco importam quem são os personagens. No caso deste filme francês, são sempre dois personagens que apresentam ao público um terceiro. Exemplar a cena do jantar, na qual as fofocas se encarregam de transmitir o essencial sobre cada um: “ele é excêntrico, está sempre sozinho”, “aquele é a ex-esposa, que nunca o perdoou por tê-la abandonado”. Eles mesmos se chamam pelos rótulos que os limitam: “a viúva”, “a histérica”, “o jovem prodígio”.
L’Heure zéro
O jornal Le Monde qualificou esse cenário de misantrópico, o que parece estranho, já que não há raiva ou mesmo desprezo pelo humanidade nessas histórias. Nesse quadro que visa unicamente um entretenimento leve, todos essas pessoas desprezáveis são assumidamente mal-construídas e sem profundidade. Cada um sofreu um trauma pessoal, e isso basta para a densidade psicológica do grupo. Os personagens, nessa estrutura, são elementos acessórios, são meras alternativas para a aposta do público: é este o assassino?
Isse leva a um tipo muito particular de direção, uma espécie de mise-en-scène do falso, onde tudo é abertamente exagerado ao limite do cômico: sombras que contornam os rostos, diálogos super explicativos, atuações inverossímeis (todos, pelo menos uma vez, encaram a câmera com olhar psicopata, para reiterar sua chance de ser o matador).
L’Heure zéro
Mesmo a lógica pode sofrer suas concessões. Em L’Heure Zéro, a solução apresentada para a trama é tão completamente absurda que fica clara a prioridade dada ao ineditismo do desfecho ao invés da verossimilhança. O que interessa é estar à frente do público e, não importa o quão astucioso ele for, que ele sempre seja surpreendido no final.
E com direito à cereja do bolo: nos segundos finais, um novo assassino é proposto. Como assim? Não importa muito como se opera esta virada, já que o filme se satisfaz com os rostos embasbacados dos espectadores, enquanto os créditos sobem e a trama, contente de si mesma, deixa a sensação de dever cumprido.