L’Histoire de Richard O.
27 de setembro 2007 22:06 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirEstética do grito

Affiche
Uma cena: Richard à beira do Sena, vendo a passagem de barcos cheios de turistas, gritando “Vocês são merda! A França para vocês é merda!”. Outra cena: Richard numa praça de Paris, refletindo em voz alta sobre a quantidade ideal de orgasmos feminino e masculino. Uma terceira: Richard transa selvagelmente com uma garota. Os dois irrompem em choro e berros durante o ato. Mais uma: uma mulher se vira para Richard e lhe diz: “Me estupra! A gente tinha combinado que você iria me estuprar!”.
A lista é longa, e seria possível continuar um longo texto com a descrição dessas imagens. Pois é de uma colagem destas cenas que é feito L’Histoire de Richard O. Richard é um tipo “flâneur erótico”, que dedica sua vida ao sexo anônimo com mulheres que ele encontra na rua, todas dotadas de um vasto acervo pessoal de fetiches.
O domínio de Richard sobre essas mulheres é fatal. Todas se apegam à ele; não no sentido amoroso, mas na necessidade sexual. Não existe amor neste filme sobre o homem contemporâneo, de modo que a carência afetiva se transforma em dependência sexual.
As múltiplas cenas de sexo são todas de forte intensidade e, por vezes, explícitas. Mas não é isso que choca, e sim, a maneira como se compõem essas imagens: mais do que uma temática de choque, tem-se uma estética de choque. Toda imagem é construída como um ataque em si mesma, cada cena destina-se a ser agressiva, suja, rebelde. Neste filme, os personagens gritam ou declamam ao invés de falar; fazem ao invés de pensar.
A coesão estética do filme se constitui, assim, não em enquadramentos, em tempos, em montagem; mas sim na necessidade de impacto de cada ação. Esta noção fragmentária me lembrou uma necessidade do cinema engajado brasileiro das décadas de 60/70, com personagens que gritavam diretamente para a câmera, cenas que queriam “acordar” o espectador e conscientizá-lo de uma realidade que se julgava ignorada.

L'Histoire de Richard O.
Neste caso, a idéia era de mostrar um homem moderno, perdido; retratar o individualismo e a decadência humana da sociedade contemporânea. Na Histoire de Richard O., embora não haja engajamento político, a crítica ao homem está lá, num retrato de um homem completamente vazio, nihilista e hedonista, que parece ser universalizado através dos outros personagens do filme, igualmente devotos ao prazer e descrentes do futuro.
Para garantir que tal mensagem seja realmente transmitida, o filme a grita insistentemente, através de diálogos, da imagem “suja” de sua captação em vídeo e dos enquadramentos “mal-comportados” (o enquadramento de uma transa é composto em harmonia com um vibrador em cima da cama; além de diversos closes em vaginas).
Este filme francês tem uma idéia muito clara na cabeça, mas nenhuma vontade de investigá-la (sua origem, sua razões, seu futuro…). Ele é um forte grito, consciente de sua própria subversão e de sue poder de choque. Alguns diretores se empolgam com o poder do instrumento que têm em mãos. O cinema, de fato, tem um grande poder.

L'Histoire de Richard O.
Uma cena um tanto incômoda parece descrever a ideologia da Histoire de Richard O.: o melhor amigo de Richard, um homem com retardo mental e claramente feio conquista uma loira linda, escultural, que se apaixona por ele instantaneamente. O diretor Damien Odoul tem plena consciência deste contraste e explora ao máximo essa suposta ironia de se unir feios e belos. Esse olhar objetifica seus personagens, acusa de forma preconceituosa o vazio do ser humano. Atrás da suposta coerência de abordar de modo banal a banalidade, o diretor não imprime qualquer visão crítica e acaba por apoiar o discurso que critica.
Andeson dice:
6 de agosto 2008 as 18:37
Não tenho um comentário , mas quero saber onde comprar esse filme
jamal dice:
8 de agosto 2008 as 13:05
Você pode comprar na Amazon :
http://www.amazon.fr/LHistoire-Richard-O-Mathieu-Amalric/dp/B0014RI3M0/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=dvd&qid=1218193462&sr=8-1