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Não tinha teto, não tinha nada

Pintor Ano passado, uma infiltração d’água estragou as pinturas da sala e da cozinha e reuniu metade da defesa pública de Paris no meu apartamento. Pouco tempo depois começou um vazamento na caixa de descarga e na pia do banheiro. Uma verdadeira crise aquática. Apesar dos apelos encharcados, só agora, 8 meses depois, o seguro autorizou a reparação dos problemas. Se as coisas demoram no Brasil, na França podem demorar, demorar, demorar muito mais.

Duas pessoas foram escaladas para o conserto. Luís, o sorridente pintor, se diz um refugiado político colombiano. Tem uns 20 e poucos anos, e está na França há 2. Previu 5 dias de trabalho pra raspar e pintar 25m2. Já Rollin, um simpático senhor francês, é bombeiro hidráulico há 43 anos. Enquanto o primeiro espalhou plásticos, latas e pincéis pela casa, o outro se fechou no banheiro. A dupla não inspirava muita confiança, e resolvi sair pra tomar um ar.

Quando voltei, Rollin falava no celular, que estava apoiado entre a cabeça e o ombro, enquanto tentava arrancar a pia na marra. E Luís tinha sacado um videogame PlayStation portátil. Achei que ele fosse sentar no chão e iniciar um jogo, e eu já estava até pensando em pedir pra ficar de próxima. Mas aí apertou uns botões e começou a sair música do aparelho.

- Es la música colombiana. ¿Te molestas?
- Vai fundo. Não incomoda nada.

A salsa comia a todo volume. No meio de vários “arriba”, um “ai”, mais alto. Achei que fizesse parte da canção, mas logo ele se repetiu, dessa vez fora do ritmo. A porta do banheiro se abre e Rollin escapa saltando, com o dedo na boca e cara de bebê-chorão. A cena, se não era patética, chegava muito perto disso.

- Merde! Cortei o dedo.
- Quer um band-aid?
- Oui, merci!

O trabalho havia acabado de começar, mas a primeira pausa já era necessária. Rollin, chupando o dedo, viu uma foto do Senegal na estante e perguntou se eu conhecia o país. Logo alternou uma tese sobre o lugar e o lamento pelo machucado.

- No interior, as pessoas dormem em casas de palha.
- Meu dedo…
- Tem muita pobreza lá.
- Ai, tá sangrando ainda.

30 minutos de histórias e “ai ai ai” depois, ele voltou ao trabalho. Aliás, ele e o Luís, que também parou o que fazia para participar do debate. Rollin acabou o último causo e se trancou no banheiro. Exatos 26 segundos depois, saiu pra atender o telefone. E voltou. E o telefone tocou. E ele saiu. E voltou de novo. E tocou de novo. E saiu de novo.

Indiferente ao vai-e-vem do bombeiro, Luís raspava a parede e se sacudia no compasso do som.

- ¿Conoces Maná? Es un grupo mexicano.
- Não, do méxico só conheço Café Tacuba.
- ¿Café Tacuba? Je les adore.
- Eu gosto também.
- Mas do que gosto mesmo é do carnaval brasileiro.
- Ah, legal. Já foi?
- Eu? Nunca.

Mais uma vez, Rollin abre a porta de supetão, tipo o Kramer, do Seinfeld. Levei um susto. “Agora vou precisar chamar a emergência”, pensei. Mas ele só queria avisar que tinha terminado o trabalho.

- Acabei.
- Já?
- Troquei a pia.
- Ótimo.
- E também a caixa de descarga. Olha aqui: o botão menor solta água suficiente para pequenos problemas. E o maior para problemas mais sólidos, entende?
- O senhor não poderia ser mais claro.

Trabalho feito, um dos trapalhões foi embora. Luís, o outro, continuou na labuta um pouco mais. Mas não por muito tempo, pois Dedé sem Didi não faz sentido.

- Acabei por hoje. Já raspei toda a tinta velha e passei um impermeabilizante.
- Tá ok.
- Você vai ver como o trabalho vai ficar bom. A nova pintura vai durar 5 anos .
- 5 anos?
- Bom, entre 3 e 4 eu garanto.
- Como?
- Olha, tenho certeza absoluta que 2 anos ela segura, pois…

Interrompi o raciocício do sujeito. No passo que a coisa ia, era capaz de ele querer refazer mesmo antes de estar pronto.

- Obrigado. E até semana que vem.
- Semana que vem?
- Claro, pra acabar de pintar.
- Ah, é.

Agora já não sabia se ficava feliz, porque ele voltaria pra acabar o serviço. Ou se ficava triste, exatamente pelo mesmo motivo.

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