Não Toque no Machado

26 de julho 2007 21:47 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Ó, minha donzela

A narrativa de Não Toque no Machado se desenrola na Idade Média, época de cavaleiros e donzelas, de conquistas e de guerras. Acima de tudo, de maniqueísmo como ordem imperante, de sentimentos de pureza ou de maldade claros. Trata-se de uma época de gente romanticamente menos complexa, gente que ama porque ama, simples assim.

Affiche

No centro desta história está justamente um casal ligado pelo amor. Ele é um cavaleiro bravo, obstinado e bom. Ela, uma mulher bela e consciente de seu poder de sedução com os homens. Ele se apaixona logo que a vê, e em seguida nada pode fazer o amor acabar. Engraçada essa idéia de eternidade afetiva.

Pois bem, neste terreno pomposo de frases belas, tem-se normalmente um cenário surpreendente, figurino e iluminação impecáveis. Muitos filmes de época já foram salvos nas bilheterias por sua beleza visual, mas o caso deste aqui é totalmente outro: poucos filmes históricos jamais ostentaram uma técnica tão precária. E que não façamos disso um ataque; admito que por vezes, a pobreza me pareceu intencional, uma possível escolha de subversão e de liberação das amarras do gênero. Na maioria das vezes, entretanto, a impressão foi mesmo de forte restrição orçamentária. A luz é mal construída, os figurinos são paupérrimos, o castelo pareceu um cenário qualquer.

Ironicamente, o diretor desta empreitada é Jacques Rivette, diretor amado pelos franceses, um dos ícones da Nouvelle Vague; época de filmes livres, com luz natural, roteiros simples, improvisação. Em suma, o oposto do gênero histórico. Mas Rivette faz sua versão histórica do amor romântico com um resultado, no mínimo, diferente.

Vale notar que um aspecto salta aos olhos em meio a esse exercício tradicional de estilo: a montager, por horas, decide opinar sobre o filme. Entre os intertítulos comuns de “dois meses depois”, entram por vezes uns comentários de sentimentos, em mesma grafia e mesma aparência objetiva: “ele sentiu então o amor profundo que ela não lhe entregaria nunca”, e coisas do tipo. Um toque de frieza literária que se torna interessante ao ser posto lado a lado com as passagens de tempo tradicionais. O autor desses intertítulos parece ser o próprio Rivette que dá sua opinião sobre o que é mostrado.

Não Toque no Machado

A crítica adorou este filme, que foi acolhido inclusive no seletivo Festival de Berlim. Poderíamos dizer que talvez a fama do diretor tenha originado esta seleção, ao invés da qualidade do filme em si; mas isso não justificaria a recepção de público excelente, que faz com que o título permaneça por tempo recorde nas salas de cinema. Aparentemente, o público perdoou a imagem feia e se apegou à história de amor.

Comente