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Nossa Música

O mundo por Godard

O último filme de Jean-Luc Godard nos cinemas foi Passion, em reestréia. O público lotou os cinemas para ter uma experiência única, seja elaboa ou ruim. Passion foi Godard em seu máximo hermetismo, com diálogos fora de sincronismo, montagem quase aleatória e história não-linear.

Agora, com o novo filme, Godard mostra um lado diferente tanto do hermetismo de Passion quanto dos aspectos Nouvelle Vague de seu primeiro filme, Acossado. Godard criou um gênero próprio em um filme contemporâneo, que avalia as próprias balizes do mundo atual.

E o mundo de Godard é um tanto estranho de se ver. Seu curto filme é dividido em três partes: inferno, purgatório e paraíso. No inferno, somos bombardeados com imagens de guerra, de corpos, de sangue, tudo em edição fragmentada, velocíssima, onde não temos tempo suficiente de nos fixar em uma imagem até que a próxima nos atinja. Essa estratégica ironicamente utilizada em comerciais aqui serve como anti-propaganda, um relato da crueldade atual. É interessante notar que, após um tempo de imagens de violência, ficamos inertes. Pouco se sente, e a culpa é despertada justamente por não sentirmos nada diante de imagens tão cruéis, efeito semelhante ao de Laranja Mecânica, de Kubrick. Está aí não só o mundo contemporâneo, mas também seu fruto, o indivíduo passivo.

A segunda parte, o purgatório, é um média-metragem onde Godard nos mostra uma série de anônimos conversando sobre o mundo. É interessante a visão que se tem de “purgatório”, ou período de espera. Aqui, essa espera é retratada por pessoas em um aeroporto, esperando o vôo e conversando enquanto uma garota espera para dizer algo a dois homens que falam sobre a vida. Há pessoas de todas as idades, e isso dá conta de cobrir todo o tempo de uma vida, fazendo do aeroporto uma metáfora bem atual de ser obrigado a ficar em algum lugar. É a vida como longo período de transição.

A última parte é o paraíso, que, para Godard, não é no céu e não tem anjos. O paraíso contemporâneo é uma bela ilha cheia de vegetação, onde todos são jovens e se divertem lendo, jogando. É para lá que vai uma personagem que se suicida no conto anterior, algo que contraria a maioria das religiões, que costumam punir os suicidas. Mas Godard parece não querer ser polêmico, só apresentar sua visão de ciclo de vida, ironicamente terminado com a personagem em direção à praia dessa ilha paradisíaca, como em um ciclo evolutivo, como se fosse novamente virar peixe, e nadar livremente pelas águas. Godard conseguiu criar um painel tão subversivo que, por fim, acaba parecendo real. Há o inferno da conformidade, o paraíso democrático, e esse longo período de espera, no qual estamos todos nós.

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