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O desprezo pelo nacional

Eu vim para a França com uma ótima opinião sobre o cinema francês. Não só pelos momentos históricos importantes (realismo dos anos 20, nouvelle vague dos anos 60), mas também pelo cinema francês moderno. Afinal, os caras têm nomes como Robert Guédiguian, François Ozon, Agnès Jaoui, Bruno Dumont e muitos outros recentes que costumam fazer trabalhos interessantes.

E também vim com a mémoria de um Brasil que despreza o próprio cinema. Quantas vezes não ouvimos falar que o cinema brasileiro é só nudez (argumento de pais e avós), ou então que é fraco tecnicamente, que não tem história (argumento dos jovens)? Mesmo os que são mais próximos do cinema lamentam com uma certa amargura o fato das nossas maiores bilheterias serem quase todas formadas por filmes da Xuxa ou dos Trapalhões.

Le Latina

Cinema Le Latina em Paris
destinado à exibição de filmes latinos

Pois encontrei aqui na França um discurso que me surpreendeu. Conversando com franceses, encontro quase sempre as mesmas afirmações de que atualmente o cinema francês é horrível, que só têm grandes produções industriais, mas o cinema de fora que é bom! “Ah, você é brasileiro? Eu adorei O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias!”.

Daí fica aquela impressão do recorte: o que eu amava do cinema francês enquanto estava no Brasil era um recorte de boa qualidade: digamos que chegam muito mais filmes do Rohmer e Chabrol do que produções comerciais à la americana, o que nos dá impressão de que o cinema francês guarda uma qualidade impecável de cinema do primeiro mundo.

Festival de cinema frances

Festival de cinema francês em São Paulo

Do mesmo modo, a francesada que gosta de cinema “de arte” pôde conferir, como últimos títulos brasileiros, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, O Céu de Suely e Cinema, Aspirinas e Urubus, ou seja, o que o nosso cinema tem produzido de melhor. Não é de se espantar que eles tenham boa impressão do cinema latino-americano.

Talvez a diferença fique por conta da nostalgia. Por aqui, o pessoal despreza o cinema atual em prol de uma doração dos filmes do passado (curiosamente, mais os filmes poéticos da década de 20 do que a nouvelle vague), enquanto no Brasil o desprezo parece ter sempre existido. Haveria nostalgia em relação aos filmes do Glauber Rocha ou Mário Peixoto? Duvido.

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