O Desprezo
23 de junho 2007 21:44 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirVolte e reveja
Eu vi este filme de Godard pela primeira vez alguns anos atrás, em uma fita VHS, num televisor de baixa definição. Mesmo assim, apaixonei-me pelo filme, de modo a passar a olhar a obra de Jean-Luc Godard com outros olhos, e a me interessar mais pelo universo cinematográfico dele e em torno dele.
Affiche
Neste tempo, tive a oportunidade de ver seus outros filmes, ver mais alguns filmes da Nouvelle Vague, ler sobre Godard e sobre o movimento como um todo, bem como entrar em contato com os livros que ele mesmo escreveu. Recentemente, inclusive, li a obra a partir da qual foi adaptado O Desprezo.
Por isso, quando vi que o filme entrou novamente em cartaz no cinema, corri para rever a obra em película. E me surpreendi pelo quanto mudou. Muito entra em cena depois de certos conhecimentos históricos ao redor da obra, e mesmo a partir do momento em que se pode considerar o filme não só enquanto narrativa própria, mas enquanto adaptação.
Por exemplo, acredito ser importante saber que O Desprezo, um dos primeiros filmes de Godard, foi seu filme mais tradicional, mais dentro dos padrões, e também o mais caro, já que contou com estrelas como Michel Piccoli e Brigitte Bardot. Foi também o “filme-homenagem” de Godard ao cinema, praticamente ao mesmo tempo em que o colega François Truffaut fazia sua própria homenagem, A Noite Americana, com resultados muito diferentes: enquanto o filme de Truffaut foi bem aceito por crítica e público e recebeu alguns prêmios como o Oscar de melhor filme estrangeiro; o filme de Godard teve recepção morna, e nem as longas cenas de nudez de Bardot atraíram o público. Esse episódio foi essencial para o fim da amizade entre os dois realizadores.
Le mépris
Tambem vale a pena lembrar que o romance homônimo de Alberto Moravia é realmente muito ruim, algo que o próprio Godard admitia sem pudor algum. É uma história sem muito desenvolvimento e de um descritivismo pobre, algo que Godard jogou fora inteiramente para adaptar no filme somente as premissas essenciais da história.
Com esses pensamentos em mente, com os anos e com a projeção mais propícia, vi um filme novo. Antes, saí com a impressão geral de um filme que equilibrava muito bem uma narrativa convencional como a do livro com o estilo mais livre e questionador de Godard. Agora, no entanto, a obra me pareceu muito tradicional, como um todo. As subversões estão lá; mas são pontuais, não se ligam entre elas e não chegam a constituir uma estética única e coesa. Há diversos momentos de beleza extrema, de cenas filmadas de modo incomum e por isso mesmo desafiador; há muita poesia isolada em si mesma.
Algo que veio a confirmar este pensamento foi a trilha de Georges Delerue que, apesar de lindíssima como antes, contribui para inserir o filme nas molduras do cinema clássico, pontuando as cenas de emoção mais forte enquanto a câmera se aproxima do rosto das personagens. Esta combinação sempre foi uma das fórmulas do cinema americano narrativo dos anos 50, por exemplo; e não estamos tão distantes disso estética ou temporalmente.
Le mépris
Enquanto adaptação, tive um prazer à parte ao constatar como se pode, efetivamente, adaptar bem uma obra literária sem grande destaque. Godard soube retirar os excessos, trocar algumas informações por outras de maior apelo visual, bem como cortar grande parte dos psicologismos que não lhe interessavam. O filme me parece, ao mesmo tempo, muito fiel à história e muito desapegado ao modo com o qual ela foi contada no livro.
O Desprezo continua me parecendo lindo, mas perdi o endeusamento do filme. Sempre acreditei que o conhecimento apaga todo glamour, que um gênio ou uma obra genial são aqueles que a gente não conhece muito bem. Cada informação transformadora do olhar nos aproxima da obra a ponto de percebê-la como trabalho humano, falível e interessante por isso mesmo.
Daqui a alguns anos, quero rever o filme.