O Tempo Que Resta

4 de outubro 2006 21:07 por BrunoEnviar Por E-Mail Imprimir
Postado em Resenhas

Ao pôr-do-sol, com violinos

François Ozon começou sua carreira experimentando bastante. Fez Sitcom – Nossa Linda Família, uma comédia histérica cheia de cores, sexo e com uma ratazana gigante no final. Bem interessante. Aos poucos, no entanto, ele foi se aventurando em filmes minimalistas e em tentativas de chegar mais perto de um humanismo silencioso, em obras que correm menos riscos.

Seu penúltimo filme, O Amor em Cinco Tempos, trazia um casal que se conhecia, tinha problemas e se separava. Só que isso era contado de trás para frente. Bom, até aí novidade nenhuma. Era um filme correto, bem atuado, mas de pouca relevância.

Agora fez O Tempo Que Resta, a segunda parte de sua “trilogia do luto” (a primeira foi Sob a Areia). Nele, um fotógrafo descobre que está à beira da morte. A abordagem é completamente naturalista, e não cede lugar a cenas criativas como as de antes.

Aliás, justamente o contrário: Ozon cria o menos possível. Seu personagem moribundo tem vontade súbita de ter um filho, de aproximar-se da família. Termina seu relacionamento estável depois de uma transa violenta, raspa os cabelos enquanto chora olhando-se no espelho, bate a cabeça na parede em momentos de sofrimento.

Não são exatamente clichês, mas são abordagens seguras de um tema tão profundo quanto a morte. Como trabalho de criação, o filme tem valor quase nulo. Como exercício de estilo, tem mais sucesso. Mas fica uma certa bronca do diretor, que já mostrou ser talentoso, mas parte cada vez mais para o piloto automático. O Tempo Que Resta é um filme meio preguiçoso, que não se esforça muito pra ver que, mesmo dentro do naturalismo pode se criar, e muito.

Ao invés disso, tem-se uma cena final com o personagem ao centro, câmera se afastando, pôr-do-sol caindo e uma bela música sentimental e crescente. É praticamente um manual de “como criar uma emoção profunda”. Como espectador, fico incomodado quando tentam me vender que o humano é aquilo ali.

Comente