Paris, Eu Te Amo
27 de maio 2007 21:41 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirCartão-postal
Nasceu da cabeça de um produtor de cinema a idéia de chamar cerca de 20 cineastas para realizarem curtas-metragens declarando seu amor à Paris. As instruções parecem ter terminado por aí. Os convidados foram principalmente diretores franceses, mas também americanos, japoneses, mexicanos e um brasileiro (Walter Salles).
Uma primeira dificuldade se instala, já que a simplicidade do projeto convida, ao mesmo tempo, à liberdade do realizador e ao oportunismo de um eventual painel turístico. Além disso, parte-se do pressuposto que todos esses cineastas amam Paris e conhecem a cidade suficientemente bem para retratá-la.
O resultado é um painel bem heterogêneo de curtas bem curtos (cerca de quatro minutos cada), nos quais fica estampada a dificuldade dos realizadores em lidar com o formato e com o tema. Para muitos, desenrola-se a lógica do “mostrar amor pela cidade = mostrar uma história de amor na cidade”. Esse desvio metonímico dá origem a uma seqüência de curtas assustadoramente convencionais, sempre com o enredo “menininho que ama menininha”. Coincidentemente, três deles terminam do mesmo modo; com um garoto apaixonado correndo pela cidade (momento-chave para se filmar as ruas de Paris).
A própria cidade, aliás; é pouco mostrada. Os episódios são divididos por região (Bastille, Montmartre, Quai de Seine etc.), mas muitos curtas se passam dentro de carros, cafés ou apartamentos que poderiam facilmente estar situados em qualquer ponto de Paris. Os diretores não se sentiram compelidos a retratarem as especificidades de cada bairro, salvo quando as diferenças culturais são gritantes (como no caso de bairros chinês e muçulmano).
Em meio ao tradicionalismo; dois curtas enveredam para o mágico, um relatando um amor entre vampiros; o outro entre mímicos (este último chega a ser um tanto constrangedor). Quanto aos estrangeiros, Iñarritu mostra-se globalizado e “adaptável”, enquanto Walter Salles envereda para um filme político, uma espécie de constatação bem simples da situação dos mais pobres em Paris.
A grande surpresa vem dos realizadores norte-americanos: Alexander Payne e a dupla Joel e Ethan Coen, que assinam os dois melhores curtas do filme. Eles encontraram um meio de fugir da emboscada de terem que declarar amor a uma cidade que não conhecem muito bem ao retratarem, justamente, americanos que não são íntimos de Paris. E dá-lhe humor negro típico dos Coen, e a doçura típica de Payne.
De um modo geral; acho o filme fraco como projeto e como execução. O amor não é mostrado em profundidade, nem a cidade em suas divesas regiões e culturas. A junção dos episódios é também particularmente infeliz, já que o enfileiramento dos curtas mais parecidos entre si gera um cansaço e evidencia a pouca criatividade do conjunto.
A bilheteria em Paris foi inegavelmente boa, o que dá a impressão de que o filme “cumpriu o seu papel”. Mas incomoda o caráter tão claramente oportunista e comercial deste produto que não apresenta um mínimo de ousadia conceitual ou estética por parte de nenhum dos vinte realizadores; produto em que o título carrega mais valor que o filme em si.