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Paris, obrigação de comer bem

A cena acontece com freqüência no Brasil: pouco depois de estourar em um campeonato e alcançar a condição de ídolo, um jovem jogador de 21 anos recebe proposta irrecusável do exterior e se despede do time de origem. Mas tão rápido quanto sua saída é o nascimento de outro craque, numa produção quase ininterrupta e que enche de orgulho o país do futebol.

Na França, os tais craques não estão nos gramados, mas nas cozinhas de restaurantes premiados e até mesmo em casa, o que certamente levaria o país ao título em hipotética Copa do Mundo de gastronomia. Aqui, comer bem é mais que uma tradição, é obrigação. E para isso, nem precisamos ir a um das dezenas de estabelecimentos estrelados no Guia Michelin. Nas reuniões de famílias, almoço é ritual sagrado, de, no mínimo duas horas, com entrada, prato principal e muito vinho. Ao fim, sobremesas ou queijos e, se possível, uma boa sesta.

Se no Brasil o futebol é aprendido logo cedo, na França não só a cozinha, mas a apresentação da mesa e certas regras na hora de servir também fazem parte da cultura local. E está aí o diferencial: com estes pequenos detalhes, restaurantes simples se tornam especiais aos olhos do visitante e oferecem serviço de extrema qualidade a preços que variam e alcançam qualquer bolso.

Seguindo a linha de que boa comida não significa necessariamente preço abusivo ou luxo, o Le Baratin continua atraindo degustadores por sua simplicidade. Localizado em meio a restaurantes chineses e japoneses no afastado 20° arrondissement, é aclamado tanto pelo tradicional Guia de Bistrôs Parisienses, de Claude Lebey, como por críticos que votaram em recente eleição do jornal Le Figaro.

Lá, pode-se comer no almoço um menu a 14 euros - uma pechincha, diga-se de passagem -, ou um jantar a 30 euros com vinho, aliás, uma das especialidades da casa. Também um pouco fora da badalação está o Le Salon, que prima pela conforto, ambiente agradável com música lounge e certamente impressiona um casal apaixonado. Com antecedência, pode-se reservar uma das salas especiais e ficar à vontade, por horas, e só ser interrompido pela chegada da…comida. E ela, felizmente, faz jus ao bom clima.

Voltando aos pontos turísticos, a localização, o serviço e a comida do Au Bon Accueil são de cair o queixo. Com exceção do Jules Verne, situado no primeiro andar da Torre Eiffel, talvez seja o restaurante mais próximo do famoso monumento e já na chegada a vista abre o apetite. Dentro, o espetáculo continua e o preço do jantar não assusta: 31 euros o menu entrada, prato e sobremesa, o que rendeu recomendação máxima no Guia Lebey e outra de “boa cozinha a preço acessível” do Guia Michelin.

Mas se o assunto é requinte – e o caixa permitir -, nada como testar um dos nove restaurantes da cidade agraciados com as três estrelas do Guia Michelin. E neste quesito, o Pierre Gagnaire, segue imbatível no coração dos franceses. Disparado o “dono da bola” da gastronomia no país, ainda tem expandido seus domínios, levando a delicadeza e criatividade de seus pratos para pólos como Tóquio, Londres e até Dubai.

Mesmo que não chegue a ser um popstar como Jamie Oliver, Gagnaire destoa dos demais chefs e mostra simplicidade anormal dentro de um meio cada vez mais concorrido. A prova está em seu site (www.pierre-gagnaire.com), que traz receitas de pratos servidos, idéias de criação e até parte de sua biblioteca pessoal. No restaurante, este “mundo” de diferenças sai caro. No jantar, menu a 250 euros e vinhos que podem ultrapassar os 8 mil.

Já outro que recebe cada vez mais boas indicações é o L’Atelier, do também prestigiado chef Joël Robuchon. Ele inclusive foi a boa novidade de Paris no Guia Michelin de 2008, conceituado agora com duas estrelas (como seu outro, o Table de Joël Robuchon). Mais do que a comida, lá o grande barato é acompanhar a manufatura dos pratos à sua frente, em um dos 36 assentos no balcão. Para comer, peixes, frutos do mar (que tal um carpaccio de lagosta com ervas aromáticas?), carnes e o mais famoso purê da Cidade-luz. Menus a 110 euros.

Ainda em torno do Guia Michelin, a nova edição saiu em março com novidade – e barulho: a queda do número de três estrelas em Paris. “Culpa” do Le Grand Véfour, que já vinha recebendo cotações negativas há algum tempo e não soube se atualizar. Para compensar e manter a França com 26 casas com cotação máxima, ascensão do Le Petit Nice, de Marselha.

Paris tradicional e barata – Se você passa longe de ser um crítico gastronômico, mas ainda assim quer experimentar a cozinha do dia-a-dia na França, três opções são irresistíveis. Uma delas é o Le Petit Bleu, que serve pratos fartos de couscous (bastante diferente do brasileiro) entre 8 e 10 euros. O lugar é pequeno, com mesas apertadas, mas a clientela é fixa e sai satisfeita em geral. E melhor: é do lado da Sacre Coeur. Já para provar uma crêpe, o Le Crêpes-Show reúne qualidade, bom preço e ótima localização: na agitada Rue de Lappe, na Bastilha, e vizinho de ótimos bares. Em termos de sorvetes, não passe por Paris sem provar o do Bertillon, na calma e linda Île Saint Louis. Além das deliciosas opções doces, destaca-se o novo sabor foie gras. Mais tradicional impossível. Mas cuidado: a casa original fecha no verão.

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