Persépolis
28 de julho 2007 21:52 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirUm amadurecimento
A protagonista de Persépolis é uma garota iraniana que, devido à opressão em política em seu país, é enviada à Europa para sua segurança e liberdade. Seus pais são militantes políticos da esquerda; perseguidos pelo governo. A avó, igualmente, é desbocada e divertida, apóia a luta e ensina a menina algumas lições preciosas.
Affiche
Essa história familiar é uma adaptação da história em quadrinhos homônima, criada por Marjane Satrapi. O filme segue os mesmos traços e a história bonitinha-engajada dos quadrinhos: para quem não conhece esta animação, os desenhos podem parecer simples demais, mesmo um pouco mal-feitos.
A surpresa, no entanto, vem do tratamento estético que se dá a esse desenho. Quando criança, a pequena Marjane começa a ter contato direto com a política que ela ainda não é capaz de compreender, e um tio lhe explica um pouco sobre a história do país: é o momento dos traços mais simples; mais puros; mais, perdoando o trocadilho, preto-no-branco. Após a explicação, a garota julga saber destinguir os bons dos maus, e sua cabeça fica cheia de imagens de homens poderosos e malvados que conversam entre si coisas do tipo “você gostaria de dominar este país?”.
Quando ela cresce, no entanto, a vida não é tão simples, e a animação também fica mais complexa, mais “suja”. Enquanto a protagonista mantém seus traços, o mundo ao redor ganhas texturas, cores, tonalidades que não existiam antes. Interessante esta consciência estética de tratar a animação como um personagem à parte, que também se complexifica à medida que amadurece.
Persepolis
Marjane, então, cresce, sofre preconceitos, ama e desama. Persépolis mescla momentos lúdicos de drama e humor, numa característica típica de “filmes familiares”, mesmo que o conteúdo político, lá no plano de fundo, possa ser um tanto pesado.
Também pertence a esse subgênero “filme família” a imposição da cronologia, do “o que vem depois”. Persépolis não quer abordar algum momento específico na vida de Marjane, e sim a vida inteira; então escolhe-se simplesmente um ponto de partida e mostram-se os fatos que continuam. A cada instante, ela cresce, e as coisas mudam. O filme não tem começo, meio e fim; algo um tanto frustrante para quem esperava um desenlace.
Persepolis
À certa altura, o filme acaba em um momento qualquer, mas poderia ter continuado, porque a vida da personagem também continua. Os realizadores souberam bem concluir a obra ao contraporem os dois diálogos mais belos do filme até então: uma mémoria familiar contraposta a uma realidade amarga e cruel.
Mas a história de Marjane é uma a mais, é uma história sem especificidades, que acontece a tantas outras. Mais do que uma amostra de opressão política, Persépolis se foca no processo de amadurecimento pelo qual passam todos, de um modo agradável e muito, muito leve.