Pintar ou Fazer Amor
23 de fevereiro 2007 21:24 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirUma estranha ode ao gozo
Encontrei em Pintar ou Fazer Amor um filme surpreendentemente descontextualizado. Uma obra que brinca com as noções básicas de tempo e espaço.
Na questão temporal, pode-se dizer inicialmente que não há referências precisas à cidade francesa em que se encontram os personagens, o que de fato não incomoda ou compromete o andamento do filme. Mas há uma relação especial das personagens com o campo aberto e as paisagens floridas.
Um primeiro item digno de nota é a provável intenção de se aproximar a paisagem da pintura. Por serem as artes plásticas tema forte no filme (presentes no título e na protagonista pintora), os diretores parecem ter optado por transformar as paisagens em pintura. Em outras palavras, a natureza vira contemplação. Não se interage com o cenário.
Uma primeira contradição se instaura, uma vez que os personagens moram justamente em uma casa isolada no campo. Como se estabelecer a relação de pessoas que moram nas montanhas sem que elas representem um dado significativo em suas vidas? A alternativa escolhida foi a aniquilação da vida cotidiana. Não se mostra os personagens vivendo suas rotinas, interagindo dentro de casa, indo ao trabalho. Na maioria do tempo, eles estão sentados de frente um para o outro (são dois casais os personagens do filme), conversando. E bebendo vinho, e se encarando, e aproveitando tempos vazios.
A imagem inerte dos casais sentados gera a impressão de claustrofobia. Mesmo em um campo aberto, o filme consegue ser claustrofóbico e dar a interessante impressão de que poderia ser uma peça teatral com cenário pintado, representando o ambiente campestre.
O fator temporal, complementar ao espaço, também sofre da falta de referências. Inicialmente, não se apresenta personagens, e nem se fará ao longo do filme. Somos introduzidos à suas vidas e espera-se que o espectador decifre-os aos poucos. Algumas ações acabam nos surpreendendo, no sentido de que não esperaríamos que a personagem agisse de tal modo. Brinca-se com o verossímil.
Uma dessas ações vem das conseqüências do ato sexual. O filme nos prepara a todo momento para a concretização sexual da tensão entre os dois casais. Espera-se (e dá-se motivos para) que todos os personagens transem entre si. Quando isto de fato se instaura, lá pelo meio do filme, um dos casais se acomete de súbito acesso de moralidade. E depois, também sem explicações, volta sedento por novas experiências.
Além disso, os vai-e-vens do roteiro são pautados por um outro fator incomum a respeito da dinâmica temporal: não se mostra passagens de tempo. Elas são sugeridas sempre nos diálogos (“fico feliz por ter passado esses 10 dias aqui”, “tenho estado muito ativo nestes últimos seis meses”), mas não são vistas. Há momentos específicos no tempo, mas não a passagem entre eles.
O final se configura como ampla propaganda da prática do swing não só como forma de obtenção de prazer físico, mas também como caminho para a felicidade, como “meio de vida”. Através da expansão da atividade sexual do casal principal a outros casais, equivale-se felicidade no sexo à felicidade no amor. A última cena é exemplar: um personagem anda num campo, à noite, depois de transar com a esposa do amigo. Enquanto isso, uma canção narra a imagem (“havia um garoto que andava muito…”). A conclusão da canção, da vida da personagem e do filme vem nos versos: “e ele aprendeu que o que importa na vida é amar / e ser amado de volta.”. Viva o sexo.