Fiquei sabendo por indicação de uma amiga, quase por acaso, que David Lynch estaria numa livraria parisiense autografando sua autobiografia.
A animação tomou conta de nós, talvez pela facilidade com que veríamos um importantíssimo diretor de cinema em carne e osso. É engraçada essa relação que muitas pessoas têm (eu, inclusive) com as celebridades: já conhecemos suas imagens, mas é totalmente diferente quando eles estão lá, do nosso lado, alcançáveis, palpáveis.
Lynch estava sentado numa mesinha, olhar plácido e simpático, conversando com todo mundo. Eu admirava sua simpatia, as rugas do rosto e mesmo a paixão que ele mostrava pelo cachorro de uma das clientes da loja. E fiquei esperando, não sei porque, que ele dissesse algo que o ligasse aos seus filmes, que ele exteriorizasse na sua própria imagem o sobrenatural de sua obra. Que ele fosse, enfim, um filme de David Lynch.
Mas ele era só um homem bacana, que cumprimentou todos, se levantou e foi tomar um café ao lado da livraria, cercado de amigos. Logo apareceu, para aumentar o caráter improvável da noite, Charlotte Rempling, que se sentou ao lado dele entre risos e brincadeiras de colegas.
Perdi a chance de tirar uma foto. Não tinha máquinas, nem celular que tirasse foto. Não tinha vontade de fotografar para mostrar à todo mundo, uma vez que ele viraria mais uma imagem como todas as outras que se conhece dele. Eu queria mesmo guardar meu próprio olhar, minha surpresa, e a beleza dessa cena banal que é ver David Lynch sentado num cafezinho em Paris.
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