Un Coeur Simple
22 de abril 2008 13:05 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirAdaptações e ilustrações
Quando se trata de adaptações da literatura ao cinema, há um certo consenso silencioso de que “o filme nunca é tão bom quando o livro”. Un Cœur Simple, adaptação de um conto homônimo de Gustave Flaubert, nos faz pensar nesta frase e em outras implicações da adaptação cinematográfica.
Affiche
Primeiramente, contrária a essa voz popular, é preciso dizer que um julgamento qualitativo opondo literatura e cinema dificilmente vai levar a algum lugar, porque não se pode comparar elementos tão diferentes. O papel do espectador (que usa sua imaginação e compõe a leitura a seu tempo e maneira) é bem diferente do espectador cinematográfico, conduzido pelas imagens dadas. Pode-se comparar, talvez, a história de ambos, a partir do momento em que supõe que ambos contam histórias. Mas a história não é o livro. Nem o filme.
Essa estréia da diretora Marion Laine na direção ajuda a pensar a questão. No conto original de Flaubert, Félicité era uma doméstica ignorante e fiel; com a capacidade de entregar toda sua afeição a elementos que lhe são retirados. Assim, ela se apaixona por um homem que a deixa, em seguida se dedica a uma garotinha que morre, ao seu sobrinho que vai embora e a um papagaio que também morre. Cada vez que ela encontra nesses outros uma razão para sua própria existência, ela é obrigada a deixá-los. Sua vida oscila então entre o luto e a paixão, numa alternância constante que a levará à loucura e à morte.
O filme de Laine conta exatamente essa mesma história. Mesmo pequenas passagens e alguns personagens coadjuvantes estão lá. No entanto, o conjunto parece maquínico, inorgânico.
Um motivo inicial seria a própria direção (que é o específico cinematográfico). No caso, esta primeira obra é discretamente realizada, sem grandes inventividades imagéticas. A direção se torna o mais simples possível para que ressalte a história, e em última instância, Flaubert. Não é raro ver um diretor deixar de se impor com intenção de não influenciar a obra original.
Un coeur Simple
Mas há mais no texto Un Cœur Simple que sua narrativa. Além das descriçõs de ações, imagéticas por excelência, existe também uma construção complexa de personagens (uma Félicité trágica, pura, quase autista; sua patroa ressentida); há o estilo irônico de escrever, particular ao autor; há as metáforas, as simbologias, as descrições de pensamentos. Ou seja, elementos que não pertencem imediatamente ao campo das imagens.
Ora, o roteiro do filme ignorou a maioria desses elementos que não se oferecem diretamente ao cinema. Existe uma clara tentativa de complexificar as mulheres da história, mas o estilo do autor não é traduzido, de modo algum, ao filme. Isso porque não é o tema que faz um livro ou ua filme, mas a maneira como ele é contado. Qualquer um pode ter uma idéia; o escritor/diretor é aquele que vai saber transpô-la em sua linguagem específica, seja o papel ou o suporte de imagem.
Penso, sobre esse assunto, na grande semelhança que existe entre as sinopses de Madame Bovary (para pegar novamente Flaubert) e O Primo Basílio, de Eça de Queirós; caso em que a flagrante diferença de escritura dos dois autores impediria logo de cara uma improvável acusação de plágio.
Un coeur Simple
Por isso mesmo, ao limitar o livro à sua trajetória, o filme de Marion Laine não contém relevo, nuances. Importante refletir sobre a terminologia: “adaptação” implica transformação, ou seja, inclusão de elementos, exclusão de outros, busca de equivalências imagéticas à sentimentos e pensamentos. Neste sentido, o espectador que vai ao cinema esperando encontrar uma obra literária sairá inevitavelmente frustrado. E Un Cœur Simple, o filme, parece não ser exatamente uma adaptação, mas uma ilustração da história, e fica essa impressão de que às vezes obras muito mais radicais e mais dissociadas do romance de origem obtém sucessos mais interessantes.
Extrapolando um pouco as fronteiras da adaptação (no sentido de distanciamento do livro), admito que o conto de Flaubert me fez pensar muito ao filme Ondas do Destino, de Lars Von Trier. Nele, não existe Félicité ou a França do século XVIII; mas a intensidade e a ironia de sua narrativa, sobre uma personagem igualmente pura que é obrigada a se submeter às mais opressoras provações do destino, parece dialogar mais com o universo flaubertiano que essa repetição despersonalizada das passagens do livro.