Zazie no Metrô
20 de agosto 2007 22:03 por Bruno ⋅ Enviar Por E-Mail ⋅ ImprimirTorta na cara
Este filme de 1960, realizado por Louis Malle, foi passado nos cinemas numa sessão especial destinada às crianças. Sabia já se tratar das aventuras de uma garota de dez anos em Paris, daí o interesse que as crianças poderiam ter no assunto. De qualquer modo, achei que uma obra de um diretor da Nouvelle Vague, um ano antes de obras-marco do cinema francês como Acossado de Godard e Os Incompreendidos de Truffaut seria demais para as crianças.
Affiche
Pois me surpreendi ao ver um filme infantil. Não só isso; vi uma experiência estranha, que me pareceu desenho animado filmado com atores de verdade. Uma verdadeira comédia pastelão, cheias de gente tropeçando, de coisas que caem, quebram, fazem barulho, pulam. E com bombas que explodem, com poderes mágicos e semelhantes.
No centro desta proposta incomum está Zazie, garota que, diante de toda Paris, se encanta justamente com a idéia de andar de metrô. Aí já se instaura uma primeira ironia, visto que o metrô está justamente em greve (algo que levou às gargalhadas os franceses da sala, provavelmente já muito acostumados a essa tradição tipicamente francesa de cruzar os braços e brigar politicamente).
No seu caminho, ela vai encontrar uma infinidade de personagens comicamente exagerados, num painel circense de gente que grita, canta, chora, tudo quase ao mesmo tempo. A história não importa muito, e o desenrolar tem mais uma sucessão de gags cômicas do que mudanças realmente importantes na narrativa. Aliás, talvez se encontre aí a maior diferença deste filme para a maioria dos filmes infantis: a ausência de uma moral definida, de um ensinamento. Zazie No Metrô é anárquico no sentido de se divertir consigo mesmo, de apresentar ações que repercutem e que se concluem em si próprio, sem nenhuma lições de moral.
Zazie dans le Métro
A linguagem empregada, também, foge do comum; mas não rumo a uma alternativa inovadora, pelo contrário, retorna-se ao que existe de mais simples em montagem e trucagem. No caso, recorre-se a uma linguagem semelhante àquela empregada nos filmes de Georges Méliès, ainda nas primeiras experiências da história do cinema: trucagens baseadas no simples reposicionamento de objetos entre planos, diante de um ângulo fixo, o que dá a impressão de “se mexerem sozinhos”, câmeras aceleradas e retardadas.
Zazie dans le Métro
Por fim, Zazie No Metrô atinge a saturação de sua hiperatividade, algo típico dos filmes infantis atuais (mas não da Disney da época, curiosamente). O espectador pode se sentir literalmente cansado diante de imagens que não páram nunca. Não há silêncios. Interessante experiência de extranhamento, deslocada na história do diretor, do cinema francês e do cinema destinado ao público infantil como um todo.